Megaoperação no Complexo da Maré: Polícia Prende 20 e Enfrenta Tiroteio e Barricadas em Chamas

As polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro deflagraram na manhã desta quarta-feira (10) a Operação Trinus, uma das maiores ofensivas dos últimos anos contra o Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo da Maré, na Zona Norte da capital. A ação, que visa cumprir 56 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão, foi recebida a tiros por criminosos, que também incendiaram barricadas e espalharam pregos pelas vias para dificultar o avanço das viaturas.

Pés de maconha apreendidos pela polícia em operação no Complexo da Maré — Foto: Reprodução

Até o início da noite, 20 homens haviam sido presos. Participam da operação agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) – as tropas de elite das forças de segurança fluminenses. Durante as buscas, os policiais apreenderam fuzis, granadas, duas estufas de maconha, um laboratório de cocaína e até uma “fazenda” de mineração de criptomoedas.

A investigação, conduzida pela 21ª Delegacia de Polícia (Bonsucesso), foi dividida em seis frentes simultâneas, revelando a sofisticação econômica e a capilaridade das atividades criminosas do TCP – que vão desde roubo de cargas e celulares até exploração sexual infantil e violência doméstica. Escolas e unidades de saúde da região fecharam as portas preventivamente.


A Operação: tiros, barricadas e blindados

Os policiais iniciaram a Operação Trinus por volta das 5h da manhã, com o objetivo de desarticular a cúpula do TCP no Complexo da Maré – região que abriga cerca de 140 mil moradores e é dividida entre diferentes facções criminosas.

  • Resistência armada: Os criminosos reagiram com tiros de fuzil, forçando os agentes a utilizarem blindados para avançar. Helicópteros sobrevoaram a região durante todo o dia.
  • Barricadas em chamas: Pneus e outros materiais foram incendiados em diversos pontos, criando cortinas de fumaça para dificultar a visibilidade da polícia.
  • Armamento pesado: Foram apreendidos fuzis de calibre restrito, granadas e munição de grosso calibre – um indício do poderio bélico da facção.

“Encontramos uma imensa quantidade de carros e motos subtraídos e um grande depósito com farta quantidade de material roubado”, afirmou a delegada Raíssa Celles, titular da 21ª DP.


As seis frentes de investigação

A operação não se limitou ao combate ao tráfico de drogas. A delegacia estruturou a investigação em seis eixos temáticos, expondo a diversificação criminosa do TCP:

1. Roubo de cargas e lavagem de capitais
O TCP agia de forma “sistemática” para interceptar caminhões nas principais vias expressas do Rio (Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela). Motocicletas cercavam os veículos, que eram levados à força para dentro da Maré. Lá, empilhadeiras descarregavam as mercadorias, revendidas em comércios locais – muitos usados como fachada para lavagem de dinheiro.

2. Roubo e receptação de celulares
O esquema contava com um “gerente operacional” que fornecia armas e motos roubadas e estabelecia metas de arrecadação. Os ladrões coagiam as vítimas a desbloquear os aparelhos na hora do roubo. Havia uma tabela de recompensas: celulares desbloqueados rendiam até R$ 2.500; bloqueados, de R$ 300 a R$ 600.

3. Tentativa de homicídio contra adolescente
Em setembro de 2024, uma família que errou o caminho e entrou na comunidade foi baleada. Uma adolescente de 13 anos foi atingida. A investigação identificou dois traficantes como autores dos disparos.

4. Exploração sexual infantil
Uma denúncia anônima revelou a troca de material de abuso sexual infantil em grupos de aplicativos. As vítimas incluíam bebês. Um dos alvos combinava encontros com um adolescente de 13 anos.

5. Violência doméstica e posse ilegal de armas
Um caso de agressão contra uma mãe que tentava retirar a filha adolescente de um bar levou a polícia a descobrir que o agressor mantinha um arsenal em casa.

6. Roubo circunstanciado na Avenida Brasil
Em maio, um casal foi roubado sob ameaça de pistola. Os criminosos arrancaram uma aliança a mordidas da vítima. Usando o cartão bancário roubado, compraram uma televisão de R$ 1,4 mil, com entrega em endereço identificado – o que permitiu à polícia rastrear um dos ladrões.


O Baile da Disney: vitrine da lavagem de dinheiro

Um dos achados mais emblemáticos da investigação foi o papel do Baile da Disney, um megaevento realizado no campo da Vila do João, dentro do Complexo da Maré. Segundo a polícia, o baile – que atrai milhares de jovens com decoração temática, fogos, personagens infantis e atrações circenses – funciona como uma “plataforma de monetização ampla do crime organizado”.

  • Escoamento de produtos roubados: Bebidas, alimentos e outros itens subtraídos são vendidos no evento.
  • Vitrine para o tráfico: O baile também serve como ponto de venda de drogas.
  • Propaganda armada: Em edições anteriores, criminosos desfilaram ostentando fuzis no meio da multidão – em um dos registros, foram contadas cerca de 40 armas durante um cortejo.

“Esse local, onde se finge estar realizando uma festividade para a diversão da comunidade, é utilizado para venda de material roubado, como bebidas alcoólicas e produtos alimentícios, além da venda de drogas”, detalhou a delegada Raíssa Celles.


Logística do crime: a Maré como central de distribuição

As investigações apontam que o TCP transferiu sua “central logística” de roubo de cargas do Complexo da Pedreira para o Complexo da Maré. A região passou a concentrar o recebimento, a guarda e a redistribuição de mercadorias roubadas.

Essa migração foi acompanhada por uma escalada da violência. Há registros de confrontos diários com policiais nas vias de acesso à Maré, com uso de fuzis e até ataques a blindados da PM.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram a dimensão do problema na área da 21ª DP: entre janeiro de 2020 e junho de 2026, foram registradas 4.328 ocorrências de roubo de veículo e 1.350 de roubo de carga.


Principais apreensões e resultados parciais

Item apreendidoQuantidade
Pessoas presas20 (até o momento)
Fuzis e granadasDiversas (contagem em andamento)
Estufas de maconha2
Laboratório de cocaína1
“Fazenda” de mineração de criptomoedas1
Carros e motos roubadosCentenas (em processo de remoção)
Material roubado (cigarros eletrônicos, celulares, etc.)Caminhões carregados

Resumo da notícia

TemaInformação
Assunto principalOperação Trinus das polícias Civil e Militar contra o Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo da Maré, com 56 mandados de prisão.
Resultados parciais20 presos, apreensão de fuzis, granadas, laboratório de drogas, estufas de maconha, mineração de criptomoedas e enorme volume de mercadorias roubadas.
Área de atuaçãoComunidades dominadas pelo TCP na Maré: Vila do João, Conjunto dos Pinheiros, Morro do Timbau e Baixa do Sapateiro.
ResistênciaCriminosos reagiram com tiros de fuzil, incendiaram barricadas e espalharam pregos. Escolas e postos de saúde fecharam.
InvestigaçãoSeis frentes: roubo de cargas, roubo de celulares, homicídio tentado contra adolescente, exploração sexual infantil, violência doméstica e roubo circunstanciado.
Lavagem de dinheiroBaile da Disney (evento na comunidade) foi identificado como plataforma de escoamento de produtos roubados e vitrine do tráfico.
Próximos passosPolícia segue cumprindo os mandados restantes; material apreendido será analisado para novas fases da operação.

A Operação Trinus escancara a sofisticação do Terceiro Comando Puro. Longe de ser uma facção que vive apenas do tráfico de drogas, o TCP construiu um verdadeiro ecossistema econômico paralelo dentro do Complexo da Maré: roubo de cargas e celulares, exploração infantil, mineração de criptomoedas e até um baile temático – o Baile da Disney – usado como plataforma de lavagem de dinheiro e propaganda armada.

A reação violenta dos criminosos – tiros de fuzil, barricadas em chamas e pregos espalhados – mostra que a facção não será desalojada sem resistência. Para a população da Maré, o preço é alto: escolas e postos de saúde fechados, tiroteios em vias de acesso e o risco de balas perdidas.

A operação ainda está em curso. Até o momento, 20 dos 56 alvos foram presos. O material apreendido – incluindo o laboratório de cocaína, as estufas de maconha e a “fazenda” de criptomoedas – será periciado e poderá abrir novas frentes de investigação. Fica a pergunta: até quando o estado conseguirá entrar na Maré apenas por meio de megaoperações, sem uma política de presença permanente e inteligência de longo prazo?

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

Check Also

Peru: Boca de Urna Aponta Vitória Apertadíssima de Keiko Fujimori sobre Roberto Sánchez

O segundo turno das eleições presidenciais no Peru terminou neste domingo (7) com uma das …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *