Flávio Bolsonaro nos EUA: “Brasil é a solução para quebrar dependência da China por minerais de terras raras”

Senador e pré-candidato à Presidência discursou na CPAC, no Texas, e pediu que “mundo livre” observe eleições brasileiras; Gleisi Hoffmann acusa família Bolsonaro de “subserviência” a Trump


O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República em 2026, defendeu neste sábado (28) que o Brasil se posicione como aliado estratégico dos Estados Unidos na disputa global por minerais críticos — especialmente os chamados elementos de terras raras, essenciais para a indústria de tecnologia, defesa e energia limpa. A declaração foi feita durante a Conservative Political Action Conference (CPAC), um dos principais eventos do movimento conservador americano, realizado no Texas.

“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”, afirmou Flávio.

O discurso repercutiu imediatamente no Brasil, onde a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), acusou a família Bolsonaro de fazer “juras de subserviência a Donald Trump” e de tentar “entregar o país aos interesses estrangeiros”.


🇺🇸 O discurso no Texas

A CPAC, que já recebeu Jair Bolsonaro em edições anteriores, tem sido um palco recorrente para políticos conservadores brasileiros buscarem projeção internacional. Desta vez, Flávio Bolsonaro discursou como pré-candidato a presidente — posição que herdou após o pai, Jair Bolsonaro (PL), declarar-se inelegível até 2030.

Além de defender a aliança estratégica com os EUA no setor mineral, Flávio pediu que “o mundo livre inteiro” observe as eleições brasileiras de 2026 com atenção e reforçou a necessidade de uma “pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana”.

A menção a “valores de origem americana” foi interpretada por analistas como um aceno à base conservadora dos EUA e uma tentativa de se alinhar ao discurso de Donald Trump, que frequentemente questiona a integridade de processos eleitorais ao redor do mundo.

⛏️ A disputa por terras raras: o Brasil no centro

Os elementos de terras raras são um grupo de 17 minerais estratégicos, essenciais para a fabricação de chips, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, mísseis e equipamentos de comunicação. Atualmente, a China domina cerca de 70% da produção global e detém a maior parte da capacidade de refino, criando uma dependência que governos ocidentais consideram uma vulnerabilidade de segurança nacional.

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo — estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas, concentradas principalmente em Minas Gerais, Goiás e na Amazônia —, mas sua exploração ainda é incipiente. Empresas como a Mineradora Serra Verde (em Goiás) e projetos da Meteoric Resources (em Minas) estão em fase de expansão, mas o país ainda está longe de se tornar um player relevante na cadeia global.

A declaração de Flávio Bolsonaro sinaliza que, se eleito, seu governo priorizaria uma aliança com os EUA para acelerar a exploração desses minerais, em detrimento de parcerias com a China — que hoje é o principal parceiro comercial do Brasil.

🗣️ A reação de Gleisi Hoffmann

A ministra Gleisi Hoffmann, uma das principais articuladoras políticas do governo Lula, reagiu duramente ao discurso. Em postagem nas redes sociais, ela afirmou:

“Flávio e Eduardo, foragido da Justiça, estão nos EUA fazendo juras de subserviência a Donald Trump. Eles nem conseguem disfarçar que seu projeto é entregar o país aos interesses estrangeiros. Imaginam que o povo brasileiro esqueceu que essa família levou o país para o Mapa da Fome, destruiu nossa economia e é responsável por centenas de milhares de vítimas da Covid.”

Gleisi também mencionou que os Bolsonaro “conspiraram com os EUA para impor o tarifaço no Brasil” — uma referência às ameaças de Trump de aumentar tarifas de importação sobre produtos brasileiros, que foram contornadas pelo governo Lula em negociações no início de 2026.

A ministra ainda associou o discurso de Flávio a uma suposta tentativa de “entregar” recursos naturais brasileiros a interesses estrangeiros, ecoando uma crítica recorrente da esquerda ao bolsonarismo: a de que sua política externa seria subordinada aos EUA em detrimento da soberania nacional.

🌎 O que está em jogo

A fala de Flávio Bolsonaro não é apenas um gesto de campanha; ela toca em um debate geopolítico real. Os Estados Unidos, sob Donald Trump, têm buscado reduzir a dependência de minerais críticos vindos da China. O Brasil, com suas reservas, é um parceiro natural nesse esforço — mas o caminho para transformar reservas em produção envolve investimentos bilionários, licenciamento ambiental e escolhas de política externa.

O governo Lula tem mantido uma posição de neutralidade ativa: ao mesmo tempo que negocia com os EUA (inclusive sobre terras raras), também busca aprofundar a parceria com a China, especialmente no âmbito do BRICS. Em 2024, o Brasil e a China assinaram um acordo para cooperação em minerais estratégicos, sinalizando que o país não pretende se alinhar automaticamente a Washington.

A declaração de Flávio, portanto, explicita uma diferença de política externa entre os dois campos: enquanto o PT defende uma posição de “não alinhamento” e busca equilíbrio entre as potências, o bolsonarismo propõe uma aliança explícita com os EUA no campo mineral — e, por extensão, na geopolítica global.


Um discurso que desenha fronteiras eleitorais

A participação de Flávio Bolsonaro na CPAC e suas declarações sobre terras raras não são apenas um episódio de campanha; são uma sinalização clara de como o bolsonarismo pretende estruturar sua política externa caso retorne ao poder em 2026.

Ao colocar o Brasil como “solução para os EUA” e pedir que o “mundo livre” observe as eleições brasileiras, Flávio se alinha ao discurso trumpista de que as eleições em países do Sul Global seriam alvo de fraudes — uma narrativa que já foi usada por Jair Bolsonaro antes das eleições de 2022 e que, agora, é retomada pelo herdeiro político.

A reação de Gleisi Hoffmann mostra que o governo Lula está atento e já mobiliza o discurso da soberania nacional como contraposição. Para a esquerda, a proposta bolsonarista de aliança explícita com os EUA é uma vulnerabilidade que pode ser explorada na campanha.

O debate sobre terras raras, assim, vai além da economia mineral. Ele se torna um símbolo do que está em jogo em 2026: um Brasil alinhado aos EUA ou um Brasil que busca equilíbrio entre potências? Um Brasil que abre seus recursos naturais para parcerias estratégicas com Washington ou que os negocia com quem pagar mais?

A resposta a essa pergunta, pelo menos por enquanto, está nos discursos — e na boca dos eleitores em outubro.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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