Fora de controle: governo Trump afirma que PCC e CV atuam em 12 estados americanos

Porta-voz do Departamento de Estado confirma presença das facções brasileiras em solo norte-americano, mas não detalha quais estados; organizações foram designadas como terroristas e miram rede financeira


O governo do presidente Donald Trump afirmou ter detectado a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) em 12 estados dos Estados Unidos. A informação foi confirmada à CNN neste sábado (30) pela porta-voz do Departamento de Estado americano, Amanda Roberson, que não detalhou quais são os estados nem especificou a natureza das operações das facções brasileiras em território norte-americano.

“A influência e as redes ilícitas do PCC e do CV se estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e até mesmo ao nosso país”, disse Roberson. A representante americana argumentou que a lista detalhada de estados com presença das facções fica a cargo das autoridades judiciais.

O anúncio ocorre semanas após os EUA terem designado o PCC e o CV como organizações terroristas estrangeiras (FTO) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT) — classificações que criminalizam o apoio às facções e permitem o bloqueio de seus ativos financeiros em solo americano.


🌎 A presença do PCC e do CV nos EUA: o que se sabe

A porta-voz do Departamento de Estado não entrou em detalhes sobre como as facções brasileiras atuam nos Estados Unidos, mas investigações anteriores indicam que as organizações criminosas têm expandido suas operações para o território americano nas últimas décadas, principalmente por meio do tráfico de drogas e da lavagem de dinheiro.

O PCC, fundado em 1993 no presídio de Taubaté (SP), é a maior facção criminosa do Brasil, com atuação confirmada em praticamente todos os estados brasileiros e em países vizinhos como Paraguai, Bolívia e Peru. O CV, originário do Rio de Janeiro, também tem presença internacional, especialmente no tráfico de cocaína para a Europa e para os EUA.

A designação como organização terrorista estrangeira (FTO) é inédita para facções criminosas brasileiras. Até então, a classificação era reservada a grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico, Hamas e Hezbollah. Ao incluir PCC e CV na lista, os EUA equiparam as facções a grupos terroristas — e abrem caminho para ações judiciais e financeiras de grande alcance.

⚖️ O que muda com a designação de “organização terrorista estrangeira” (FTO)

A classificação de um grupo estrangeiro como FTO (Foreign Terrorist Organization) é uma prerrogativa do Departamento de Estado americano, prevista na Seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade, criada em 1996. Para que uma organização seja designada como FTO, ela deve atender a três critérios:

  1. Ser uma organização estrangeira
  2. Envolver-se em “atividade terrorista” ou “terrorismo”
  3. Ameaçar a segurança de cidadãos dos EUA ou os interesses econômicos e de defesa nacional americanos

Após o anúncio da designação do PCC e do CV, o Congresso americano tem sete dias para analisar a medida. Se os parlamentares não agirem para bloquear a classificação, ela será publicada no Federal Register (equivalente ao Diário Oficial da União brasileiro).

As implicações práticas da designação FTO são severas:

  • Crime federal fornecer “apoio material ou recursos” a uma organização FTO, com penas que podem chegar a prisão perpétua e multas de até US$ 1 milhão.
  • Cidadãos americanos feridos por atos de terrorismo podem processar por danos aqueles que auxiliam uma FTO.
  • Membros estrangeiros de grupos FTO têm entrada proibida nos EUA e podem ser deportados.
  • Instituições financeiras americanas são obrigadas a reportar ao Departamento do Tesouro qualquer fundo de uma FTO, e o secretário do Tesouro pode exigir o bloqueio de transações.

💰 O congelamento de bens e o cerco financeiro global

Além da designação FTO, o governo Trump classificou o PCC e o CV como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT) , com base no decreto 13224 assinado por George W. Bush após o 11 de setembro. Essa designação dispensa a revisão do Congresso e passa a valer imediatamente.

Os efeitos práticos da designação SDGT são:

  • Todos os bens e interesses do PCC e do CV que estejam nos EUA, que entrem nos EUA ou que estejam sob controle de pessoas americanas são bloqueados.
  • Qualquer transação ou negociação com pessoas ou grupos afetados pela designação é proibida, mesmo fora da jurisdição americana.
  • Pessoas não americanas que se envolvam em transações proibidas sujeitas à jurisdição dos EUA podem sofrer sanções civis ou criminais.
  • Instituições financeiras estrangeiras que facilitarem transações para o PCC ou CV podem ser sancionadas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC).

Na prática, o governo Trump está tentando isolar financeiramente as facções brasileiras, impedindo que utilizem o sistema bancário americano e bloqueando eventuais ativos que tenham em solo norte-americano. A medida também serve como advertência a empresas e indivíduos em outros países que negociem com o PCC ou CV: se usarem o dólar ou o sistema financeiro americano, podem ser sancionados.

A reação do Brasil e os desdobramentos

O governo brasileiro ainda não se manifestou oficialmente sobre a designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA. Nos bastidores, diplomatas avaliam que a medida é um reconhecimento da gravidade do problema do crime organizado no Brasil, mas também pode ser vista como uma ingerência na política interna.

A designação como organização terrorista também pode complicar as relações diplomáticas entre Brasil e EUA, especialmente se o governo Trump adotar medidas unilaterais contra o PCC e CV que afetem a soberania brasileira.

Para as facções criminosas, a designação é um duro golpe em sua estrutura financeira. O PCC, em particular, construiu uma rede de lavagem de dinheiro que inclui empresas de fachada, imóveis e até mesmo um banco (o Banco Master, que está no centro de investigações da Operação Compliance Zero). Com o bloqueio de ativos nos EUA e a criminalização de qualquer transação financeira que envolva o dólar, a facção pode ser forçada a migrar para criptomoedas ou para sistemas financeiros não alinhados aos EUA — como os da China ou da Rússia.


O reconhecimento da internacionalização do crime brasileiro

A confirmação de que PCC e CV atuam em 12 estados americanos é um marco na história do crime organizado no Brasil. As maiores facções criminosas do país não são mais um problema exclusivamente brasileiro — elas se internacionalizaram a ponto de serem consideradas uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.

A designação como organizações terroristas e o bloqueio de ativos são respostas à altura do problema, mas também levantam questões: será que o governo americano tem legitimidade para classificar facções criminosas como “terroristas”, equiparando-as a grupos como Al-Qaeda e Estado Islâmico? E qual será a reação do governo brasileiro, que historicamente resiste a intervenções externas em sua política de segurança pública?

Por ora, o recado de Washington é claro: o PCC e o CV estão na mira. Seus ativos nos EUA podem ser bloqueados. Qualquer pessoa ou empresa que negocie com eles arrisca sanções severas. E o governo Trump está disposto a usar “todas as ferramentas disponíveis” para combatê-los — dentro e fora das fronteiras americanas.

O crime organizado brasileiro acaba de entrar em uma nova era. E ela começa com seus bens congelados e suas operações na mira do governo mais poderoso do mundo.

Reportagem produzida com base em informações da CNN Brasil publicadas em 30 de maio de 2026

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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