Ricardo Siqueira Rodrigues, intermediário entre o banqueiro e o ex-governador do Rio, é apontado como operador de esquemas que lesaram fundos de pensão em R$ 3 bilhões; empresário delatou e já foi alvo da CVM

O empresário Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado pela Polícia Federal como lobista do banqueiro Daniel Vorcaro e intermediário entre ele e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), tem um histórico de duas décadas de envolvimento em fraudes contra fundos de previdência. O episódio mais recente — e de maior vulto — foi a captação de R$ 3 bilhões do Rioprevidência para o Banco Master, que levou Rodrigues a ser alvo de busca e apreensão na terça-feira (26), na 6ª fase da Operação Compliance Zero.
Mas a trajetória de Rodrigues nas sombras do sistema previdenciário brasileiro começou muito antes. Em 2005, ele já era alvo da CPI dos Correios, que ajudou a revelar o mensalão. À época, segundo o relatório da CPI, Rodrigues era o dirigente de uma corretora de investimentos que promoveu “diversas operações atípicas no mercado financeiro”, provocando “perdas aos fundos de pensão” que usaram seus serviços.
Agora, 20 anos depois, a PF descreve Rodrigues como peça-chave em um esquema que pode ter desviado bilhões de aposentados e pensionistas — e cujas ramificações alcançam o ex-governador do Rio, o Banco Master e até um hotel com a marca de Donald Trump.
🕵️ O esquema recente: R$ 3 bilhões do Rioprevidência para o Master
De acordo com as investigações, Rodrigues recebia uma comissão de 0,6% de Daniel Vorcaro sobre os valores que angariava para o Banco Master. A captação dependia de “alinhamento político” com o então governador Cláudio Castro (PL), que indicou em 2023 o advogado Deivis Marcon Antunes para o comando do Rioprevidência — o fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro.
Em mensagens obtidas pela PF, sem citar Deivis, Rodrigues disse a Vorcaro que “resolveria os trâmites internos” para o Rioprevidência alocar recursos no banco. O resultado foi o aporte de R$ 3 bilhões em papéis e fundos da rede do Banco Master.
O valor é estratosférico: R$ 3 bilhões que, segundo a PF, podem ter sido desviados ou aplicados sem lastro, gerando prejuízos aos aposentados e pensionistas do Rio de Janeiro. Apenas uma parte desse montante — R$ 126 milhões — foi rastreada pela PF em transferências para uma empresa de Rodrigues, a Mídias Promotora, que recebeu recursos do Master entre 2022 e 2025.
Segundo a PF, esta firma ajudava a “escoar recursos oriundos das operações fraudulentas” entre fundos de previdência e o banco de Vorcaro, “facilitando a lavagem de ativos e o repasse de valores aos agentes envolvidos”.
📜 O histórico de 20 anos: da CPI dos Correios à CVM
A trajetória de Rodrigues em fraudes previdenciárias começou em 2005, quando ele foi alvo da CPI dos Correios. Na ocasião, o relatório da CPI apontou que ele era dirigente de uma corretora de investimentos que realizou “diversas operações atípicas” no mercado financeiro, causando perdas a fundos de pensão como a Fundação Rede Ferroviária de Seguridade Social (Refer).
A Refer teve um rombo de R$ 2,6 milhões (em valores da época — cerca de R$ 8,4 milhões corrigidos pela inflação). Rodrigues recebeu uma multa de mais de R$ 1 milhão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por atuação fraudulenta.
O caso da Refer tem um detalhe que liga o passado ao presente: o advogado Deivis Marcon Antunes, que em 2023 foi nomeado por Cláudio Castro para o comando do Rioprevidência, integrava o quadro de dirigentes da Refer à época das fraudes. A conexão levanta suspeitas de que o esquema montado em 2005 tenha servido de modelo para o desvio bilionário de 2025.
🏨 O hotel de Trump e a delação premiada
Rodrigues também aparece em outro episódio de fraude envolvendo fundos de pensão, investigado pela Lava Jato: a construção de um hotel na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio, em 2016, que levaria a marca do presidente dos EUA, Donald Trump.
A investigação apontou que Rodrigues e outro sócio da construção, o comunicador Paulo Figueiredo — conhecido por sua atuação junto ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro —, se beneficiaram de operações fraudulentas no valor de R$ 17,8 milhões (Rodrigues) e R$ 9 milhões (Figueiredo) na venda de cotas do empreendimento.
Em 2023, a CVM multou Rodrigues em R$ 53 milhões pelo caso, apontando que o empresário era “o indivíduo responsável por captar os recursos de entidades de previdência”. O hotel foi inaugurado com diferenças em relação ao projeto original, e o grupo Trump rompeu o contrato de licenciamento da marca ainda em 2016, prejudicando os fundos que aportaram recursos.
Após ser preso, Rodrigues fechou um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, o que levou à prisão de Paulo Figueiredo no início de 2019. O processo contra o comunicador bolsonarista, no entanto, foi trancado posteriormente por decisão da Justiça Federal.
Outro relato de Rodrigues gerou desdobramentos à investigação do chamado “QG da Propina” na gestão de Marcelo Crivella na prefeitura do Rio. O empresário disse aos investigadores que um restaurante dele foi usado como fachada para o suposto operador de Crivella, Rafael Alves, receber R$ 1 milhão em propina.
🔗 A teia que conecta Vorcaro, Castro e o futuro da investigação
A delação de Rodrigues, se for homologada e se mostrar consistente, pode ser um divisor de águas nas investigações. O empresário tem informações privilegiadas sobre:
- A relação entre Vorcaro e Castro (que renunciou ao governo do Rio em março de 2026, dias antes de ser julgado pelo TSE)
- O esquema de captação de recursos de fundos de pensão (incluindo o Rioprevidência e a Refer)
- A atuação de agentes públicos que facilitaram os aportes no Banco Master
- O uso de empresas de fachada (como a Mídias Promotora) para lavagem de dinheiro
O ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, já autorizou novas buscas e apreensões com base nas informações de Rodrigues. A expectativa é que novos desdobramentos ocorram nas próximas semanas — possivelmente incluindo a prisão de outros envolvidos.
O profissional do desvio
A trajetória de Ricardo Siqueira Rodrigues revela um personagem que há 20 anos se especializa em uma única atividade: intermediar a aplicação de recursos de fundos de pensão em esquemas fraudulentos. Da CPI dos Correios à Lava Jato, e da Lava Jato à Operação Compliance Zero, Rodrigues esteve no centro dos maiores escândalos de desvio de recursos previdenciários do país.
Sua capacidade de se reinventar — sempre como lobista, sempre como intermediário, sempre com acesso a políticos e agentes públicos — é impressionante. Também impressionante é a capacidade do sistema de permitir que ele operasse por duas décadas sem ser efetivamente punido.
Agora, preso e delator, Rodrigues tem a chance de colaborar com a Justiça e ajudar a desvendar uma teia que pode envolver desde um ex-governador do Rio até um dos maiores banqueiros investigados no país. Resta saber se, desta vez, o sistema o ouvirá — e se as punições virão.
Para os aposentados e pensionistas que perderam bilhões com suas operações, a Justiça tardiamente começa a se mover. Para Rodrigues, a delação é a última cartada. Para o país, a esperança de que, finalmente, o ciclo de impunidade se rompa.
Reportagem produzida com base em informações do O Globo publicadas em 27 de maio de 2026
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