Divisão na ONU: China, Rússia e França rejeitam autorização de uso de força no Estreito de Ormuz

Resolução que permitiria ação militar para reabrir via marítima é derrotada no Conselho de Segurança; Estados Unidos e Reino Unido votaram a favor, mas esbarram em veto de Moscou e Pequim



O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) rejeitou nesta sexta-feira (3) uma resolução que autorizaria o uso de força militar para reabrir o Estreito de Ormuz, bloqueado por forças iranianas há mais de um mês. A proposta, apresentada por Estados Unidos e Reino Unido, recebeu o apoio de 9 dos 15 membros do Conselho, mas foi derrotada pelos vetos de China e Rússia — que têm poder de veto como membros permanentes — e pelo voto contrário da França, que também integra o seleto grupo.

A França, tradicional aliada ocidental, surpreendeu ao se juntar a Pequim e Moscou na oposição. O país argumentou que uma autorização para uso de força “abriria precedente perigoso” e que a prioridade deve ser a negociação diplomática, mesmo diante do bloqueio que já elevou o preço do petróleo a patamares superiores a US$ 100 o barril.



🌍 O placar da votação

De acordo com informações preliminares, a votação teve o seguinte resultado:

· A favor (9): Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Equador, Suíça, Malta, Moçambique e Albânia.
· Contra (3): China, Rússia e França.
· Abstenções (3): Brasil, Emirados Árabes Unidos e Gabão.

Para ser aprovada, a resolução precisava de pelo menos 9 votos a favor e nenhum veto dos cinco membros permanentes (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China). Com os vetos de Rússia e China, mais o voto contrário da França, a proposta foi rejeitada.

A abstenção do Brasil foi interpretada como uma tentativa de equilíbrio: o país condena o bloqueio, mas não endossa uma ação militar sem um mandato mais amplo da comunidade internacional.

🇫🇷 A posição francesa surpreende aliados

O voto francês contra a resolução foi o mais comentado nos corredores da ONU. A França é membro da Otan e tradicional aliada dos EUA, mas tem mantido uma posição mais cautelosa em relação ao conflito no Golfo. O representante francês no Conselho de Segurança argumentou que “a escalada militar não trará estabilidade duradoura” e que “o direito internacional humanitário deve ser preservado”.

Nos bastidores, analistas apontam que a França busca proteger seus interesses econômicos na região — incluindo contratos de petróleo e gás com países do Golfo — e evitar uma guerra regional que poderia afetar o abastecimento europeu. Além disso, Paris tem se posicionado como mediadora em outras crises globais (como a guerra na Ucrânia) e não quer ser vista como belicista.

A decisão francesa irritou Washington. O porta-voz do Departamento de Estado disse que “os EUA estão decepcionados com aliados que não reconhecem a urgência de reabrir o Estreito de Ormuz”.

🇨🇳 🇷🇺 O veto estratégico de Pequim e Moscou

China e Rússia, que já haviam se oposto a ações militares anteriores contra o Irã, usaram seu poder de veto para bloquear a resolução. Pequim, maior comprador de petróleo iraniano, tem interesse direto na manutenção do regime dos aiatolás e vê o conflito como uma oportunidade de enfraquecer a influência americana no Oriente Médio.

Moscou, por sua vez, tem utilizado a crise para desviar a atenção de sua guerra na Ucrânia e para consolidar uma aliança tática com Teerã. A Rússia também é membro do chamado “Eixo da Resistência” (ao lado de Irã, Coreia do Norte e China) e vê qualquer autorização de força contra o Irã como um precedente perigoso para seus próprios interesses.

Em comunicado conjunto, Rússia e China afirmaram que “o bloqueio do Estreito de Ormuz deve ser resolvido por meios pacíficos e com respeito à soberania iraniana” — uma posição que ignora o fato de que o Irã está violando o direito internacional ao impedir a livre navegação.

⚖️ O impasse jurídico e político

A derrota da resolução no Conselho de Segurança deixa os EUA e seus aliados em uma posição desconfortável. Sem um mandato da ONU, qualquer ação militar para reabrir o estreito seria tecnicamente ilegal sob o direito internacional — embora os EUA possam invocar o direito à autodefesa (artigo 51 da Carta da ONU) para proteger seus navios e interesses na região.

O governo Trump já havia ameaçado agir unilateralmente, com ou sem aval da ONU. Em março, o presidente deu um ultimato de 48 horas para o Irã reabrir o estreito, ameaçando “aniquilar” usinas de energia iranianas. Na ocasião, o prazo expirou sem ação militar imediata, mas a ameaça permanece.

Com a derrota na ONU, a pressão aumenta sobre a administração americana: ou recua e aceita negociar com o Irã em condições desfavoráveis, ou avança com uma ação militar unilateral, arriscando isolar-se diplomaticamente.



Um recuo estratégico ou o prelúdio de uma ação unilateral?

A rejeição da resolução que autorizaria o uso de força no Estreito de Ormuz expõe as profundas divisões na comunidade internacional diante do conflito. China e Rússia usaram seu poder de veto para proteger o Irã, enquanto a França surpreendeu ao se juntar a eles, deixando os EUA em minoria no próprio Conselho de Segurança.

Para os EUA, o resultado é um revés diplomático significativo. A Casa Branca esperava contar com o apoio da França e de pelo menos mais dois membros permanentes para isolar Rússia e China. Em vez disso, viu uma de suas principais aliadas europeias votar contra.

O impasse jurídico agora empurra Washington para uma encruzilhada: aceitar a via diplomática — que o Irã insiste em condicionar a reparações de guerra e ao reconhecimento de seu controle sobre o estreito — ou agir unilateralmente, correndo o risco de aprofundar a crise e de enfrentar condenações internacionais.

Enquanto isso, o Estreito de Ormuz continua bloqueado, os petroleiros permanecem ancorados e o petróleo oscila acima dos US$ 100. A ONU falhou em dar uma resposta unificada. Resta saber se os EUA tentarão resolver a crise por conta própria — ou se aguardarão que o custo econômico do bloqueio convença os opositores a mudar de posição.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

Check Also

Contagem regressiva: comissão especial decide hoje parecer sobre o fim da escala 6×1

Texto do relator Leo Prates (Republicanos-BA) prevê redução gradual da jornada de 44 para 40 …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *