Deolane Bezerra é apontada como “caixa” do PCC pela polícia: influenciadora teria papel central em esquema de lavagem de R$ 1,8 bilhão

Advogada e influenciadora foi presa em Alphaville; investigação aponta que ela usava sua projeção pública para dar aparência de legalidade a dinheiro da facção, incluindo a compra de carros de luxo como Ferrari e Porsche


A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público classificaram a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), em relatório da Operação Vérnix, deflagrada nesta quinta-feira (21). Deolane foi presa em sua mansão em Alphaville, na cidade de Barueri, e levada ao presídio de Santana.

Segundo a investigação, a influenciadora teria papel central na estrutura financeira da facção criminosa, funcionando como uma espécie de “caixa” do PCC. Valores atribuídos à organização eram depositados em contas ligadas a Deolane e misturados a recursos de outras atividades antes de retornarem ao grupo — uma técnica de lavagem de dinheiro que dificulta o rastreamento financeiro.

A operação investiga um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo uma transportadora de cargas controlada pela cúpula do PCC, que teria movimentado cerca de R$ 1,8 bilhão. A empresa repassava recursos para outras contas, com o objetivo de dificultar o rastreamento do dinheiro. Duas dessas contas estão em nome da advogada.

“Deolane Bezerra dos Santos é hoje uma das mais importantes pessoas integrantes do vasto e diferenciado esquema de lavagem de capitais gerido pela organização criminosa”, afirma o inquérito policial, obtido pela TV Globo.


💰 O papel de Deolane no esquema: “caixa” do PCC

A investigação aponta que os repasses feitos para as contas da influenciadora ocorreram em um contexto de “prestação e fechamento de contas” da facção, e não como pagamento por eventuais serviços advocatícios lícitos. Deolane, que é advogada, usaria sua estrutura financeira e sua projeção pública para dar aparência de legalidade a recursos de origem ilícita.

O lucro do esquema, segundo a polícia, era incorporado à economia formal por meio da compra de bens de alto valor em nome de empresas ligadas à advogada, como uma Ferrari SF90 Stradale (R$ 4,7 milhões) e um Porsche 911 Carrera.

Apesar de ser integrante do PCC, a promotoria informou que Deolane não foi batizada e não tem um apelido dentro da facção — o que, para os investigadores, não a exclui da organização criminosa, mas indica que ela atua em um nível diferenciado, possivelmente como colaboradora externa de alto valor.

🕵️ As movimentações suspeitas: “smurfing” e depósitos fracionados

Uma das movimentações que mais chamou a atenção dos investigadores foram depósitos em espécie feitos entre 2018 e 2021, que somaram R$ 1.067.505,00 na conta física de Deolane. Todos os depósitos foram fracionados em valores inferiores a R$ 10 mil — prática conhecida como “smurfing”, usada para dividir grandes quantias em depósitos menores com o objetivo de evitar mecanismos de controle e fiscalização financeira.

Além disso, a investigação identificou quase 50 depósitos feitos a duas empresas de Deolane Bezerra, no valor total de R$ 716 mil, por uma empresa que se apresenta como banco de crédito e que tem como responsável um homem morador da Bahia que recebe em torno de um salário mínimo por mês.

A análise das contas não identificou nenhum pagamento relacionado a esses créditos — o que é apontado como indício de ocultação e dissimulação de recursos do PCC. Também não foram identificadas prestações de serviço como advogada que justificassem os valores repassados.

🔗 A conexão com “Player” e a transportadora do PCC

Deolane mantinha um vínculo estreito com Everton de Souza, conhecido como “Player”, considerado operador financeiro do esquema. Ele era o responsável por indicar as contas bancárias da influenciadora para o recebimento de recursos provenientes do “fechamento” ou “acerto de contas” mensal da organização criminosa.

A investigação teve origem na troca de bilhetes e manuscritos apreendidos em 2019 em um presídio de Presidente Venceslau. Durante a análise do material, os investigadores encontraram menções a uma “mulher da transportadora”, apontada nos bilhetes como responsável por levantar endereços de agentes públicos para viabilizar ataques planejados pelo PCC.

Em 2021, a Operação Lado a Lado apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central do esquema. O conteúdo do aparelho revelou detalhes sobre a lavagem de dinheiro pela transportadora e expôs conexões financeiras com a influenciadora. Imagens encontradas no aparelho mostram depósitos para contas de Deolane e de Everton.

🏛️ As prisões e a defesa

Deolane Bezerra foi presa nesta quinta-feira (21) em sua mansão em Alphaville. Ao ser levada ao presídio de Santana, ela disse: “A Justiça vai ser feita”. A influenciadora passou as últimas semanas em Roma, na Itália, e seu nome chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol. Ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20), um dia antes da operação.

O advogado de Deolane, Luiz Imparato, disse que está se “inteirando dos fatos”. O advogado Bruno Ferullo, que defende Marcola (líder do PCC), também afirmou que ainda vai se inteirar do caso. A defesa dos demais presos não foi localizada pela reportagem.

Além de Deolane, a Operação Vérnix prendeu outros suspeitos de integrar o esquema de lavagem de dinheiro do PCC.

📊 O que é a Operação Vérnix

A Operação Vérnix é um desdobramento de investigações que vêm sendo conduzidas há anos contra o PCC. O foco principal é uma transportadora de cargas controlada pela cúpula da facção, que funcionava como empresa de fachada para lavagem de dinheiro.

O esquema, segundo a polícia, movimentou cerca de R$ 1,8 bilhão. A transportadora recebia recursos de atividades ilícitas do PCC (tráfico de drogas, extorsão, etc.) e os repassava para outras contas, incluindo as de Deolane Bezerra, com o objetivo de dificultar o rastreamento.

A influenciadora, com sua projeção pública e sua estrutura empresarial, era peça-chave para dar aparência de legalidade ao dinheiro sujo. A compra de carros de luxo e imóveis de alto padrão em nome de suas empresas seria a etapa final do processo de lavagem.


A “caixa” do PCC que vivia na mansão

A prisão de Deolane Bezerra é o desfecho de uma investigação que durou anos e que expõe a faceta mais sombria da influenciadora: por trás das postagens sobre mansões, carros de luxo e viagens internacionais, a polícia encontrou uma suposta “caixa” do PCC — uma das pessoas mais importantes do esquema de lavagem de dinheiro da maior facção criminosa do país.

A advogada, que construiu uma carreira como influenciadora digital e se apresentava como bem-sucedida empresária, agora terá que explicar à Justiça a origem dos R$ 1,8 milhão em depósitos fracionados, os R$ 716 mil repassados por empresas de fachada, e os carros de luxo que exibia nas redes sociais.

A operação também expõe a capilaridade do PCC na economia formal e a sofisticação de seus métodos de lavagem de dinheiro. A facção, conhecida por controlar o tráfico de drogas dentro e fora dos presídios, agora mostra que também domina técnicas bancárias de ocultação patrimonial.

Para Deolane, a Justiça pode ter acabado de fazer a maior virada de sua vida — e não uma daquelas que ela mostra nos stories.

Reportagem produzida com base em informações do G1 publicadas em 21 de maio de 2026

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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