Alcolumbre trava CPI do Master: presidente do Congresso recusa-se a ler requerimento de instalação

Senador alega que ato é “discricionário” da presidência e prioriza análise de vetos; Flávio Bolsonaro, um dos autores do pedido, assiste ao recuo em meio à crise de sua pré-campanha


O presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP), negou-se a ler os requerimentos de instalação da CPI do Banco Master na sessão conjunta desta quinta-feira (21). A decisão, justificada por Alcolumbre como um ato “discricionário” da presidência da Mesa, enterra — pelo menos por ora — as esperanças da oposição e de parte da base aliada de criar uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as fraudes bilionárias envolvendo a instituição financeira de Daniel Vorcaro.

A negativa ocorre em um momento delicado para o governo e para o Congresso. O escândalo do Master já levou à prisão de Vorcaro, à deflagração de múltiplas fases da Operação Compliance Zero e a revelações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, que envolvem o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Um dos parlamentares que defendia a abertura da CPI do Master era justamente Flávio Bolsonaro — cuja pré-campanha está em crise desde a divulgação de áudios em que ele aparece pedindo dinheiro a Vorcaro. O senador, que na semana passada viu sua intenção de voto despencar nas pesquisas, assistiu ao recuo de Alcolumbre sem esboçar reação imediata.


🚫 A justificativa de Alcolumbre: “ato discricionário”

A justificativa de Alcolumbre para não ler os requerimentos foi técnica: ele afirmou que a prioridade da sessão conjunta desta quinta seria a análise de vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

“Requerimentos de leituras de matérias devem ser objeto de despacho da presidência. Portanto, o momento da leitura é um ato discricionário da presidência da Mesa do Congresso Nacional”, declarou o senador.

Na prática, a decisão de Alcolumbre significa que a instalação da CPI do Master não avançará enquanto ele assim decidir. Como presidente do Congresso Nacional, ele tem o poder de pautar — ou não — a leitura dos requerimentos que iniciam o processo de criação de uma CPI.

A medida foi interpretada por aliados do governo como um gesto de proteção ao Planalto, que teme os desdobramentos de uma CPI em ano eleitoral. Já a oposição classificou a atitude como “manobra para blindar aliados”.

🗣️ Lindbergh confronta Flávio: “o senhor foi visitá-lo na prisão?”

Durante a sessão, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) usou o momento para confrontar diretamente Flávio Bolsonaro, que estava presente. Lindbergh sugeriu que o senador poderia usar a tribuna para responder aos questionamentos sobre sua relação com Vorcaro — mas com um tom claramente irônico e acusatório.

“O senhor foi visitá-lo um dia depois que ele saiu da prisão com tornozeleira eletrônica? Quer dizer que não sabia dos envolvimentos dele? Vossa Excelência não sabia da aplicação de 970 milhões de reais do Rio Previdência, governado pelo seu partido, no seu estado?”, perguntou Lindbergh.

As perguntas do deputado petista referem-se a revelações recentes de que Flávio visitou Daniel Vorcaro logo após o banqueiro ser solto da primeira prisão, em novembro de 2025, e a aplicações suspeitas de recursos do fundo de previdência do Estado do Rio de Janeiro (Rio Previdência) em empresas ligadas ao Master.

Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas na sessão. Seu silêncio foi interpretado como um recuo diante do crescente desgaste provocado pelo escândalo.

🎯 A crise de Flávio: por que o senador queria a CPI?

A posição de Flávio Bolsonaro a favor da instalação da CPI do Master pode parecer contraditória, dado seu envolvimento com Vorcaro. Mas, politicamente, a estratégia era clara: o senador tentava se antecipar às investigações, usando a tribuna da CPI para controlar a narrativa e atacar o governo Lula.

Com o pedido travado por Alcolumbre, Flávio perde essa ferramenta. Em vez de ter um palco para desviar o foco de suas próprias ligações com o Master, ele agora assiste ao avanço das investigações policiais sem contraponto político. As pesquisas mostram que o áudio em que ele pede dinheiro a Vorcaro já derrubou sua intenção de voto em mais de cinco pontos no primeiro turno e seis pontos no segundo.

O senador também perdeu o apoio do Centrão, que decidiu adotar a neutralidade na corrida presidencial. E agora, com a CPI travada, fica ainda mais isolado.

🏛️ Governo comemora, oposição critica

A decisão de Alcolumbre foi comemorada nos bastidores pelo governo Lula. O Planalto teme que uma CPI do Master possa se estender até o período eleitoral e desgastar não apenas Flávio Bolsonaro, mas também políticos do Centrão que são aliados do governo — como o próprio presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cujo nome apareceu em investigações relacionadas ao caso (embora ele não seja formalmente investigado).

A oposição, por sua vez, criticou a decisão. Parlamentares do PL, do Novo e do PSDB afirmaram que Alcolumbre “blindou” o governo e que a CPI é necessária para esclarecer as fraudes bilionárias do Banco Master, que lesaram aposentados e pensionistas do INSS.

“A população tem o direito de saber o que aconteceu com os R$ 6,3 bilhões desviados do INSS. O presidente do Congresso está atrapalhando a investigação”, disse um deputado do PL, sob condição de anonimato.


Uma CPI que não virá (pelo menos por ora)

A decisão de Davi Alcolumbre de não ler os requerimentos de instalação da CPI do Master é mais um capítulo na novela política envolvendo o escândalo do Banco Master. Por ora, a CPI não avançará — e as investigações seguirão restritas à Polícia Federal e ao Supremo Tribunal Federal.

Para Flávio Bolsonaro, a negativa é mais um revés em uma semana já marcada por quedas nas pesquisas, afastamento do Centrão e questionamentos sobre sua relação com Vorcaro. O senador, que tentava usar a CPI como palco para desviar o foco, perdeu a oportunidade.

Para o governo Lula, a decisão é um alívio. O Planalto escapa de uma comissão que poderia se voltar contra aliados do Centrão e expor fragilidades em ano eleitoral.

Para a transparência e o controle social, resta a frustração. As fraudes bilionárias do Banco Master — que incluem descontos indevidos em aposentadorias, lavagem de dinheiro e pagamento de propina a agentes públicos — seguirão sendo investigadas sem o escrutínio público de uma CPI.

Alcolumbre justificou sua decisão como um “ato discricionário” da presidência. Mas, na política, todo ato discricionário tem um propósito — e, neste caso, o propósito foi claramente evitar que o fogo do escândalo se espalhe para além dos já atingidos. Por ora, a CPI do Master fica no papel.

Reportagem produzida com base em informações da CartaCapital publicadas em 21 de maio de 2026

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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