Justiça Italiana Aponta Parcialidade de Alexandre de Moraes e Anula Extradição de Carla Zambelli

A Corte de Cassação da Itália, máxima instância do sistema judicial do país, anulou o processo de extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) ao fundamento de que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria atuado com parcialidade no julgamento da parlamentar. A decisão, divulgada nesta sexta-feira (12), representa um revés diplomático e jurídico significativo para as pretensões do Brasil de repatriar a ex-congressista, condenada por invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e porte ilegal de arma.

Em sua fundamentação, a corte italiana afirmou que Moraes atuou sob uma “dupla veste” no caso: ao mesmo tempo em que era o relator e julgador do processo, também era “pessoa danificada por um dos crimes imputados à recorrente” — referência ao mandado de prisão falso que Zambelli ordenou que fosse inserido no sistema da Justiça, direcionado ao próprio ministro.

“O mesmo juiz expediu o mandado de prisão em desfavor de Z. S. O. C., redigiu o pedido de extradição e forneceu informações a respeito do estabelecimento prisional”, diz outro trecho do acórdão, listando o que a Justiça italiana classificou como um “acúmulo atípico de funções judiciais”.


O que aconteceu

Carla Zambelli foi condenada no Brasil por dois crimes principais: invasão do sistema do CNJ (em conluio com o hacker Walter Delgatti Neto) e porte ilegal de arma de fogo durante as eleições de 2022. A ex-parlamentar teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral de São Paulo em 2025 e fugiu para a Itália, país onde possui ascendência e onde buscou refúgio.

  • A decisão italiana: A Corte de Cassação anulou a extradição no último dia 22 de maio, e o acórdão com os fundamentos foi divulgado agora, em 12 de junho. Para os juízes italianos, a imparcialidade do tribunal brasileiro ficou comprometida porque Alexandre de Moraes era, ao mesmo tempo, julgador e vítima do crime de falsidade ideológica (o mandado de prisão falso).
  • A “dupla veste”: A corte italiana entendeu que Moraes incorreu em “múltiplos elementos capazes de fazer duvidar da imparcialidade, sob o aspecto objetivo”, ao participar de todas as fases do processo: como relator, como juiz que decidiu sobre a própria suspeição, como signatário do mandado de prisão e como autor do pedido formal de extradição.
  • A libertação: Com a decisão, Zambelli foi solta na Itália. Em vídeo publicado nas redes sociais (no perfil de seu marido, Coronel Aginaldo), ela comemorou: “Hoje é dia 22 de maio de 2026, dia de Santa Rita, nome da minha mãe e da pessoa que era minha companheira de cela.”

Principais informações

  • O argumento central da Itália: A parcialidade decorre do fato de que Alexandre de Moraes não era um julgador neutro — ele próprio foi o alvo do mandado de prisão falso inserido por Delgatti a mando de Zambelli. O documento fictício dizia: “Expeça-se o mandado de prisão em desfavor de mim mesmo, Alexandre de Moraes. Publique-se, intime-se e faz o L.”
  • A posição do STF: Em nota oficial, o tribunal reafirmou sua “independência e imparcialidade” e disse acompanhar com “preocupação” a decisão italiana. O presidente do STF, ministro Luiz Edson Fachin, assinou o comunicado no qual se afirma que todos os atos do processo “transcorreram em estrita observância à Constituição e ao devido processo legal”. O STF também ressaltou que a condenação de Zambelli foi unânime na Primeira Turma, colegiado que afastou a alegação de suspeição à época.
  • Próximos passos na Itália: A anulação da extradição pela Corte de Cassação não é a palavra final. O processo ainda depende de uma decisão do ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio, que tem 45 dias para se manifestar a partir da publicação do acórdão. Ele pode acatar a decisão da corte e negar definitivamente a extradição ou, alternativamente, solicitar garant adicionais ao Brasil.
  • Cronologia do caso:
    • 2022: Zambelli ordena que Delgatti insira mandado de prisão falso contra Alexandre de Moraes no sistema do CNJ.
    • 2024-2025: STF condena Zambelli; Justiça Eleitoral cassa seu mandato.
    • 2025: Zambelli foge para a Itália.
    • 2026 (maio): Corte de Cassação da Itália anula a extradição.
    • 2026 (12 de junho): Acórdão com os fundamentos é divulgado.

Contexto: O princípio da imparcialidade do juiz

A decisão da Corte de Cassação italiana toca em um dos pilares do direito processual penal universal: o princípio do juiz natural e da imparcialidade objetiva. Em sistemas jurídicos ocidentais, é vedado a um magistrado julgar uma causa na qual ele tenha interesse pessoal, direto ou indireto — sob pena de nulidade absoluta do processo.

  • O que diz o direito brasileiro: O Código de Processo Penal brasileiro (artigo 252) estabelece que é suspeito o juiz que “for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer das partes”. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a questão à época, entendeu que a situação de Moraes não se enquadrava em suspeição porque a ofensa (o mandado falso) não o tornava “parte” no sentido processual, mas sim vítima de um crime — e o STF, como instituição, não se declarou impedido.
  • A visão italiana: Para a corte europeia, a distinção brasileira entre “parte” e “vítima” não é suficiente. O tribunal italiano entendeu que o fato de Moraes ser o destinatário da ameaça e ao mesmo tempo o condutor do processo fere a garantia de imparcialidade que a Itália exige em qualquer pedido de extradição.
  • Implicações diplomáticas: A decisão constrange o Brasil no plano internacional, pois coloca em xeque a confiabilidade de seus processos judiciais perante cortes estrangeiras. A Itália é signatária de tratados de extradição com o Brasil, mas reserva-se o direito de recusar pedidos sempre que houver fundadas suspeitas de violação de garantias fundamentais.

Repercussão política

A anulação da extradição de Zambelli foi celebrada por aliados da ex-deputada e por setores da oposição como uma “derrota do ativismo judicial” de Alexandre de Moraes. Já o governo brasileiro e membros do STF avaliam a decisão como um precedente perigoso, que pode abrir margem para outros condenados fugirem para a Itália e obterem o mesmo benefício.

A defesa de Zambelli comemorou a decisão como uma vitória do “devido processo legal” contra o que chama de “perseguição política”. Já os acusadores sustentam que a fuga para a Itália foi uma manobra para escapar da Justiça brasileira e que a questão da suspeição já havia sido superada no âmbito do STF por decisão colegiada unânime.


Resumo da notícia

TemaInformação
Assunto principalCorte de Cassação da Itália anula extradição de Carla Zambelli ao apontar parcialidade do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Fundamento da decisãoMoraes atuou com “dupla veste”: julgador e vítima do crime (mandado de prisão falso). A corte italiana viu “acúmulo atípico de funções judiciais”.
Situação de ZambelliA ex-deputada está solta na Itália. Ela havia sido condenada no Brasil por invasão do sistema do CNJ e porte ilegal de arma. Seu mandato foi cassado em 2025.
Posição do STFTribunal reafirmou sua imparcialidade e disse acompanhar a decisão “com preocupação”. Destacou que a condenação foi unânime na Primeira Turma.
Próximos passosMinistro da Justiça da Itália tem 45 dias para decidir se acata o acórdão e nega definitivamente a extradição.
Impacto diplomáticoDecisão italiana pode dificultar futuros pedidos de extradição do Brasil à Itália e abre precedente para outros condenados fugirem para o país europeu.

A decisão da Corte de Cassação da Itália coloca em lados opostos o entendimento de dois sistemas jurídicos sobre um princípio fundamental: a imparcialidade do juiz. Para o STF, não houve suspeição, pois a condenação foi colegiada e o fato de Moraes ser vítima não o impediria de relatar o caso. Para a Justiça italiana, a “dupla veste” é insanável e contamina todo o processo.

Independentemente de quem tenha razão técnica, o episódio é um duro golpe para a pretensão brasileira de repatriar condenados foragidos. Carla Zambelli, que tinha o mandato cassado e enfrentava uma pena de prisão, encontra-se agora livre na Itália, aguardando a decisão final do ministro da Justiça italiano. Se a extradição for definitivamente negada, o Brasil terá de conviver com a imagem de que um de seus mais altos ministros teve sua parcialidade reconhecida por uma corte europeia — um desgaste que vai além do caso concreto e atinge a credibilidade do sistema de Justiça brasileiro no exterior.

Resta saber se o governo brasileiro recorrerá a instâncias diplomáticas para reverter o quadro ou se aceitará o revés como um custo do ativismo judicial praticado nos últimos anos. Para a ex-deputada, a festa está feita; para o STF, um precedente perigoso se consolida.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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