Iván Cepeda, herdeiro político de Gustavo Petro, lidera pesquisas para primeiro turno, mas risco de derrota no segundo turno assombra progressistas; ultradireita e uribismo crescem com discurso de segurança dura e rejeição ao acordo de paz

Mais de 41,4 milhões de colombianos estão aptos a votar neste domingo (31) em uma eleição que pode representar um divisor de águas para a esquerda no país. Quatro anos após levar ao poder Gustavo Petro, o primeiro presidente progressista da história da Colômbia, o campo progressista tenta a reeleição por meio do senador Iván Cepeda, candidato da continuidade. Mas o fantasma do que ocorreu no Chile em 2025 — onde a esquerda liderou o primeiro turno e perdeu no segundo — ronda a campanha.
As pesquisas mostram Cepeda à frente, mas com risco real de derrota no segundo turno, caso os votos da direita se unifiquem em torno de um único nome. A disputa é acirrada: um levantamento Invamer dá Cepeda com 44,6%, contra 31,6% do ultradireitista Abelardo de la Espriella e 14% da candidata da direita tradicional, Paloma Valencia. Já a AtlasIntel indica empate técnico entre Cepeda (38,7%) e Abelardo (37,3%).
O que está em jogo não é apenas a continuidade do projeto de Petro, mas o futuro da própria esquerda colombiana — e, em certa medida, o equilíbrio geopolítico da América do Sul.
📊 Os candidatos e o que propõem
Iván Cepeda (esquerda) – Senador, filósofo e defensor dos direitos humanos, é o candidato da continuidade do governo Gustavo Petro. Propõe dar seguimento à política de “paz total”, que inclui negociações com os grupos armados remanescentes (ELN, dissidências das Farc), e manter as políticas sociais e ambientais do atual governo.
Abelardo de la Espriella (ultradireita) – Advogado e empresário milionário, é admirador declarado de Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele. Propõe “mão dura” contra o crime, construção de megapresídios, combate frontal ao narcotráfico e rejeição ao acordo de paz com as Farc. Seu discurso é iliberal, antidemocrático e contrário aos direitos humanos.
Paloma Valencia (direita tradicional) – Vem de uma das famílias mais poderosas da Colômbia e é herdeira política do ex-presidente Álvaro Uribe (o “uribismo”). Defende o endurecimento contra os grupos armados, a militarização da política e uma agenda econômica neoliberal.
A grande incógnita é o que ocorrerá no segundo turno. Se Cepeda não vencer no primeiro (o que é improvável, dado que as pesquisas não lhe dão 50%+1), os votos de Paloma Valencia e de outros candidatos de direita devem migrar para Abelardo — repetindo o fenômeno chileno, onde a direita se uniu em torno de Kast para derrotar Jara.
🕊️ O acordo de paz como campo de batalha
O acordo de paz assinado com as Farc em 2016, durante o governo de Juan Manuel Santos, é um dos temas mais polarizadores da eleição. O acordo desmobilizou a maior guerrilha do país, mas não foi implementado plenamente. Dissidências das Farc continuaram ativas, e outros grupos (ELN, Clan do Golfo) expandiram seus territórios.
O governo Petro tentou retomar as negociações com os grupos remanescentes sob a política de “paz total”, mas os resultados foram limitados. A violência voltou a crescer em várias regiões, e o discurso de segurança dura ganhou força.
Cepeda defende a continuidade das negociações e critica a militarização. Abelardo e Paloma rejeitam o acordo de paz e prometem uma “solução militar” para os grupos armados.
Para a analista Renata Peixoto de Oliveira, professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), o acordo de paz é um elemento central da disputa — e uma vulnerabilidade para a esquerda.
“O acordo de paz não se efetivou da maneira como era esperado. Isso volta à tona e é um dos assuntos mais importantes da eleição, um elemento até mesmo crítico da proposta de continuidade da esquerda, porque o governo atual propôs seguir as negociações. Enquanto isso, candidatos da direita já apresentam ao eleitorado outra postura, um discurso de segurança mais forte, de mão dura. E isso tem dividido opiniões”, diz.
🌎 O fenômeno da nova direita: Abelardo e o trumpismo colombiano
Abelardo de la Espriella não é um político tradicional. Assim como Trump, Milei e Bukele, ele se apresenta como um “outsider”, alguém que não está vinculado a partidos ou a uma trajetória política convencional. Seu discurso é apolítico, anticorrupção (embora ele próprio seja investigado por vínculos com o narcotráfico) e profundamente iliberal.
Ele propõe:
- Construção de megapresídios e endurecimento das penas
- Combate frontal ao narcotráfico, com uso das forças armadas
- Rejeição ao acordo de paz e retomada da ofensiva militar contra as guerrilhas
- Liberalismo econômico exacerbado, cortes de impostos e desregulamentação
“Ele se inspira muito em um liberalismo econômico exacerbado, como nos referimos ao falar de Milei na Argentina — é quase uma anarquia neoliberal, um projeto ainda mais radical que o neoliberalismo que estávamos acostumados a ver na América Latina no início dos anos 90”, afirma Renata.
A ascensão de Abelardo preocupa analistas porque ele representa um retrocesso democrático — e porque sua chegada ao poder poderia significar o fim do acordo de paz e um novo ciclo de violência no país.
🔮 O futuro da esquerda colombiana em caso de derrota
Se Cepeda perder, a esquerda colombiana sofrerá um duro golpe. Diferentemente do Brasil, onde o PT já consolidou sua tradição política e conseguiu retornar ao poder, na Colômbia a experiência progressista é recente e frágil.
“Um mandato é pouco até mesmo para se criar uma tradição política, embora devamos reconhecer que o governo de Petro já conseguiu ganhos muito consideráveis para que a esquerda fosse vista como uma possibilidade. Antes, nem isso”, diz Renata.
O governo Petro, apesar das dificuldades, conseguiu avançar em políticas sociais, ambientais e de direitos humanos. Seu sucessor, Cepeda, tenta consolidar esses ganhos. Se for derrotado, a esquerda terá que se reorganizar — e, segundo a analista, terá que mostrar capacidade de resolver o problema da segurança pública, que é o tema decisivo da eleição.
“Essa esquerda teria de se mostrar também capaz de resolver problemas como o da segurança pública, que parece ser a questão decisiva no pleito. Teria de mostrar que sua visão é mais acertada que a da direita sobre os conflitos e a criminalidade de uma maneira geral.”
Um plebiscito sobre a paz e a democracia
A eleição colombiana deste domingo é, nas palavras da analista Renata Peixoto de Oliveira, “quase como um plebiscito”. Quem vota em Cepeda sinaliza que quer a continuidade do projeto progressista — com suas negociações de paz, suas políticas sociais e sua agenda ambiental. Quem vota em Abelardo ou Paloma opta pelo retorno da direita — e, no caso de Abelardo, por uma direita radical, iliberal e antidemocrática.
Os riscos são altos. A Colômbia viveu 80 anos de conflito armado antes do acordo de paz de 2016. Voltá-lo ao passado significaria, para milhões de colombianos, o retorno do medo, do deslocamento forçado e da violência. Para a América do Sul, seria mais um golpe em um continente que já viu a ascensão de Milei na Argentina, a reeleição de Bukele em El Salvador e a crescente influência da extrema-direita em toda a região.
As urnas abrem no domingo. O mundo estará assistindo.
Reportagem produzida com base em informações da CartaCapital publicadas em 30 de maio de 2026
MINHA CAPITAL Notícias, dicas e muito mais – Brasília!