O papa que não teme Trump: Leão XIV rebate críticas do presidente americano com silêncio e Evangelho

Pontífice diz que não entrará em debate com o republicano e segue com missão de paz; Trump chamou Leão de “fraco” e disse que ele só está no Vaticano por ser americano


O papa Leão XIV respondeu nesta segunda-feira (13) às duras críticas feitas por Donald Trump no domingo (12), mas não da forma que o presidente americano talvez esperasse. Em entrevista a jornalistas a bordo do avião papal a caminho da Argélia, o pontífice — que é cidadão americano — afirmou que não tem “medo do governo Trump” e que não pretende “entrar em um debate” com o republicano. Sua mensagem, disse, vem do Evangelho: paz, reconciliação e a busca por evitar a guerra.

“Colocar minha mensagem no mesmo patamar do que o presidente tentou fazer aqui, creio eu, é não compreender qual é a mensagem do Evangelho, e lamento ouvir isso, mas continuarei com o que acredito ser a missão da Igreja no mundo hoje”, declarou Leão XIV à agência AP.

O papa reiterou que seus apelos pela paz no Irã, no Líbano, na Ucrânia e no Sudão não são ataques direcionados a Trump ou a qualquer governante específico. São, segundo ele, a aplicação do ensinamento cristão de que a guerra é sempre uma derrota da humanidade. “Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação.”


O ataque de Trump: “papa fraco” e “surpresa chocante”

A troca de farpas começou no domingo (12), quando Trump publicou em sua rede Truth Social uma longa mensagem chamando Leão XIV de “FRACO no combate ao crime e péssimo em política externa”. O presidente americano afirmou que não quer “um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear” — embora não haja registro de que o pontífice tenha endossado o programa nuclear iraniano.

Trump também disse que Leão XIV só foi escolhido papa porque a Igreja Católica, diante da impossibilidade de lidar com ele, decidiu eleger um americano para “lidar com o presidente Donald J. Trump”. “Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano”, escreveu.

O presidente ainda mencionou o irmão do papa, Louis, dizendo que ele é “totalmente MAGA” (o slogan de campanha “Make America Great Again”) e que gosta mais dele do que do pontífice. Em seguida, publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece vestindo uma túnica branca, abençoando um homem doente, ao lado da bandeira americana, da Estátua da Liberdade, caças de guerra, uma aeronave espacial e gaviões.

✝️ A resposta do papa: “não tenho medo”

A resposta de Leão XIV foi contida, mas firme. Além de dizer que não teme o governo Trump, o papa recusou-se a entrar no mérito das críticas pessoais. “Não estou fazendo um ataque direto contra Trump ou qualquer outra pessoa”, afirmou. “É não compreender a mensagem do Evangelho” interpretar seus apelos pela paz como um ataque político.

A estratégia do pontífice é clara: não dar a Trump o confronto que ele busca. Ao elevar o debate para o plano espiritual e moral, Leão XIV se coloca em uma posição acima da contenda política — e, ao mesmo tempo, isola as críticas do presidente americano como desproporcionais ou equivocadas.

A viagem papal à Argélia, primeiro destino de uma turnê de 10 dias por quatro países africanos, é o pano de fundo dessa resposta. O papa quer falar sobre as necessidades do continente, onde vive mais de um quinto dos católicos do mundo, e não sobre as provocações de Trump.

🌍 O contexto: guerra, paz e a voz do Vaticano

As críticas de Trump ocorrem em um momento sensível. No domingo, horas antes da postagem, Leão XIV havia pedido um cessar-fogo no Líbano, com o conflito no Oriente Médio entrando em sua sétima semana. O papa também expressou preocupação com a guerra na Ucrânia e com o conflito no Sudão.

Trump, que vem conduzindo uma guerra contra o Irã desde 28 de fevereiro, tem se irritado com as declarações do Vaticano que, sem citá-lo diretamente, condenam a “ilusão de onipotência” e os apelos à força militar. Para o presidente americano, qualquer crítica à guerra é uma crítica a ele.

O papa, no entanto, não recua. Em seu voo para a Argélia, deixou claro que continuará a defender a paz e a reconciliação — com ou sem a aprovação da Casa Branca. “Não tenho medo”, repetiu.

🎭 A guerra de imagens: AI, túnicas e caças de guerra

A publicação de Trump com a imagem gerada por IA — ele próprio vestido como uma autoridade religiosa, abençoando um fiel em meio a símbolos de poder militar americano — foi amplamente criticada nas redes sociais como de mau gosto e desrespeitosa. Para muitos, a montagem foi uma tentativa de ridicularizar o papa e, ao mesmo tempo, projetar uma imagem de liderança messiânica.

A Casa Branca não comentou a postagem. Mas o episódio revela o estilo de Trump: usar a tecnologia para provocar, misturar religião e poder bélico, e transformar qualquer crítico em alvo de ataques pessoais. O papa, ao se recusar a responder na mesma moeda, pode ter vencido o primeiro round dessa troca de farpas.


Um papa que não se curva

Leão XIV pode ser o papa americano, mas não é o capelão da Casa Branca. Sua resposta às críticas de Trump — sem medo, sem rebater diretamente, mas sem recuar da mensagem de paz — é um gesto de independência que poucos líderes mundiais se atrevem a ter diante do presidente dos EUA.

Ao dizer que não vai “entrar em um debate” com Trump, o papa retira do presidente o protagonismo que ele tanto busca. Ao afirmar que não tem medo, envia um recado claro: o Vaticano não será intimidado por ameaças ou insultos.

A viagem à África, agora, será o palco para que Leão XIV mostre ao mundo qual é sua prioridade: não as provocações de Trump, mas a defesa dos pobres, dos marginalizados e das vítimas da guerra. O papa americano pode até ter sido uma “surpresa chocante” para o conclave, como disse Trump. Mas, aos olhos de milhões de católicos, ele está mostrando que tem coluna vertebral — e que não se dobra a presidentes, por mais poderosos que sejam.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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