Grupo aliado do Irã reivindica primeiro ataque direto contra território israelense desde início do conflito e ameaça bloquear Bab el-Mandeb, alternativa ao Estreito de Ormuz; EUA emitem alerta sobre riscos à navegação

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Os houthis do Iêmen, grupo armado aliado ao Irã, reivindicaram neste sábado (28) seu primeiro ataque direto contra Israel desde o início da guerra no Oriente Médio, há exatamente um mês. O anúncio amplia os temores de uma expansão do conflito para uma nova frente na península Arábica, ao mesmo tempo que adiciona uma camada extra de pressão sobre o transporte marítimo global.
Em comunicado, os houthis afirmaram ter disparado “uma série de mísseis balísticos almejando alvos militares israelenses sensíveis” em resposta aos ataques contra o Irã, o Líbano, o Iraque e os territórios palestinos. O grupo disse que suas operações continuarão até o fim da “agressão” em todas as frentes.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram mais cedo ter interceptado um míssil lançado do Iêmen. Não houve relatos imediatos de vítimas ou danos em território israelense.
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🌊 A ameaça do segundo estreito: Bab el-Mandeb
Mais preocupante para a economia global do que o ataque em si é a ameaça que acompanhou o anúncio. Os houthis já haviam sinalizado, nos dias anteriores, que estão prontos para assumir o controle do Estreito de Bab el-Mandeb, a passagem marítima que conecta o Mar Vermelho ao Oceano Índico, situada entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia.
O estreito controla o tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez e transporta cerca de 12% do petróleo comercializado por via marítima no mundo. Nas últimas semanas, com o Estreito de Ormuz bloqueado pelas forças iranianas, Bab el-Mandeb ganhou importância estratégica ainda maior como rota alternativa para o escoamento de petróleo do Golfo.
Na quinta-feira (26), a agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, informou que os houthis estariam prontos para atuar como “forças de resistência” na região. “Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental”, disse uma fonte militar iraniana à agência.
O mesmo canal já havia publicado uma advertência direta aos EUA: “Se os americanos quiserem pensar em uma solução para o Estreito de Ormuz com medidas imprudentes, devem ter cuidado para não adicionar outro estreito aos seus problemas.”
🚢 O “pesadelo” de um bloqueio duplo
O pesquisador Farea Al-Muslimi, do centro de estudos britânico Chatham House, classificou o novo desdobramento como de “enorme importância”. Questionado sobre o impacto de um bloqueio efetivo do estreito, ele foi direto: “seria um pesadelo. Já temos um pesadelo, e isso só o tornaria ainda pior.”
A preocupação é compartilhada pelos Estados Unidos. A Administração Marítima do Departamento de Transportes dos EUA emitiu um alerta nesta semana sobre a possibilidade de ataques de houthis no Estreito de Bab el-Mandeb. O comunicado reconhece que o grupo não ataca navios comerciais desde o cessar-fogo entre Israel e Gaza em outubro de 2025, mas alerta: “os houthis continuam a representar uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais, nesta região.”
🎯 Quem são os houthis e por que atacam agora
Os houthis, formalmente conhecidos como Ansar Allah (Partidários de Deus), são um grupo armado político e religioso que defende a minoria muçulmana xiita zaidita do Iêmen. Liderados atualmente por Abdul Malik al-Houthi, o grupo se declara parte do “Eixo da Resistência” liderado pelo Irã contra Israel, os EUA e o Ocidente, ao lado do Hamas e do Hezbollah.
O grupo ganhou força em 2014, quando tomou a capital Sanaa e forçou o presidente iemenita ao exílio. Desde então, resiste a uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita e controla grandes partes do Iêmen, incluindo a costa do Mar Vermelho — o que lhe dá capacidade direta de atacar o tráfego marítimo.
Durante a guerra em Gaza, os houthis atacaram navios no Mar Vermelho e no Estreito de Bab el-Mandeb, usando drones e mísseis, forçando grandes armadoras a desviar rotas e aumentando custos de transporte globais. Agora, com o conflito ampliado para o Irã, o grupo sinaliza que está disposto a repetir a estratégia — ou intensificá-la.
Um dirigente houthi, em anonimato, afirmou à Reuters que o grupo está “militarmente pronto” para atacar o estreito em apoio a Teerã. “Estamos com todas as opções à nossa disposição. A decisão sobre o momento cabe à liderança, que acompanha os desdobramentos e definirá a hora certa de agir”, declarou.
⚔️ O efeito geopolítico: uma guerra em múltiplas frentes
O ataque deste sábado e as ameaças subsequentes representam um salto qualitativo no conflito. Até agora, a guerra envolvia diretamente EUA, Israel e Irã, com repercussões em países do Golfo que abrigam bases americanas. A entrada dos houthis no campo de batalha abre uma nova frente na península Arábica, potencialmente envolvendo também a Arábia Saudita e os Emirados Árabes — que já enfrentaram os rebeldes iemenitas por anos.
Para Jo Floto, chefe do escritório da BBC News no Oriente Médio, a intervenção dos houthis “abre uma nova frente do conflito na península Arábica”. Para o mercado de petróleo, significa que o bloqueio do Estreito de Ormuz — que já tirou 20% do petróleo mundial do mercado — pode ser acompanhado por um bloqueio em Bab el-Mandeb, estrangulando ainda mais a oferta global.
A combinação dos dois estreitos fechados seria inédita. Ormuz, no Golfo Pérsico, é a saída do petróleo saudita, iraniano, iraquiano e dos Emirados. Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, é o caminho para o Canal de Suez, a rota mais curta entre o Oriente Médio e a Europa. Ambos fechados, as alternativas seriam contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança — o que adiciona semanas de viagem e custos astronômicos.
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O conflito se expande onde o mundo não pode ignorar
O ataque dos houthis a Israel marca um novo patamar na guerra que começou há um mês com a morte do líder supremo iraniano. O que era um confronto entre potências regionais agora se espalha para o Iêmen, um país devastado por uma década de guerra civil, onde os houthis demonstraram nos últimos anos sua capacidade de atingir infraestrutura energética saudita e ameaçar o transporte marítimo global.
Para Israel e EUA, a nova frente representa um dilema militar e estratégico. Responder aos houthis significa abrir mais um teatro de operações em um conflito que já se arrasta em múltiplas direções. Ignorar o ataque pode incentivar o grupo a intensificar suas ações.
Para o mercado de energia, a ameaça de bloqueio duplo — Ormuz e Bab el-Mandeb — é um cenário que os analistas classificam como catastrófico. O petróleo já opera acima de US$ 100 há semanas. Um fechamento efetivo dos dois estreitos poderia levar os preços a patamares nunca vistos, com consequências econômicas globais imediatas.
Enquanto o mundo ainda digere o ultimato de Trump, as negociações negadas pelo Irã e o envio de tropas americanas para a região, os houthis lembram que o Oriente Médio tem mais de um ponto de estrangulamento — e que, para aqueles que controlam esses gargalos, a guerra pode se expandir para onde o mundo não pode fechar os olhos.
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