Dossiê Conservador Distribuído a Cardeais Reacende Tensões no Conclave para Sucessão de Francisco

Na véspera do conclave para eleger o novo papa, cardeais receberam um polêmico dossiê intitulado Relatório do Colégio dos Cardeais, que perfila cerca de 40 candidatos com posições alinhadas ao conservadorismo, em contraste com as reformas progressistas do falecido papa Francisco. O material, distribuído por jornalistas ligados a grupos tradicionalistas, é visto como uma tentativa de influenciar a escolha do próximo líder da Igreja Católica, gerando debates sobre interferência externa e a legalidade da iniciativa.

Conteúdo e Objetivos do Dossiê

O relatório, disponível online e em formato impresso, detalha as posições dos cardeais em temas divisivos, como:

  • Bênçãos a casais do mesmo sexo;
  • Ordenação de diaconisas;
  • Ensinamentos sobre contracepção.

Entre os perfis, destaca-se a crítica ao cardeal Mario Grech, responsável por reformas estruturais sob Francisco, descrito como “polêmico”, enquanto o conservador Raymond Burke, crítico aberto do pontífice, é elogiado. O texto sugere implicitamente a necessidade de um líder que reverta as mudanças recentes.

Autores e Financiadores

O projeto foi liderado pelos jornalistas Edward Pentin (Reino Unido) e Diane Montagna (EUA), vinculados a veículos católicos tradicionalistas. A produção contou com apoio da Sophia Institute Press, editora conhecida por publicações anti-Francisco, como a revista Crisis Magazine, e da Cardinalis, publicação francesa que promove figuras conservadoras.

Grupos como o Napa Institute e a Papal Foundation, ambos com forte influência financeira e alinhados a setores conservadores, também estiveram envolvidos na preparação do conclave. Um apoiador anônimo da Papal Foundation declarou ao Times de Londres: “Esta sala poderia arrecadar um bilhão para ajudar a Igreja. Contanto que tenhamos o papa certo”.

Controvérsias e Reações

  • Violação da Lei Canônica: A canonista Dawn Eden Goldstein alertou que a iniciativa viola as regras estabelecidas por João Paulo II, que proíbem interferências externas na eleição papal sob pena de excomunhão. O direito canônico busca proteger o sigilo e a independência do conclave.
  • Resistência dos Cardeais: Apesar do esforço, especialistas duvidam que os cardeais sejam facilmente influenciados. Oswald Gracias, arcebispo aposentado de Bombaim, recebeu o dossiê mas afirmou não tê-lo lido, destacando preocupação com “notícias falsas” nas redes sociais.

Cenário Político e Conexões Internacionais

O relatório reflete a polarização dentro da Igreja, com grupos conservadores buscando reverter a “internacionalização” do Colégio Cardinalício promovida por Francisco, que nomeou cardeais de 71 países. Além disso, há ligações entre financiadores do dossiê e apoiadores de Donald Trump, como Tim Busch, cofundador do Napa Institute, que elogiou o governo Trump como “o mais cristão” que já viu.

Contexto Brasileiro
Dos sete cardeais brasileiros votantes, Dom Sérgio da Rocha (Arcebispo de Salvador) surge como figura moderada. Integrante do Conselho de Cardeais criado por Francisco, ele é visto como ponte entre reformistas e tradição, embora não conste no dossiê conservador.

Relatório do Colégio dos Cardeais expõe a batalha ideológica que define o futuro da Igreja Católica. Enquanto conservadores buscam frear o legado progressista de Francisco, a legislação canônica e a diversidade do colégio eleitoral — com 40% dos cardeais nomeados pelo próprio Francisco — podem equilibrar a balança. Como destacou o professor de direito canônico Kurt Martens, “iniciativas como essa pretendem influenciar, não informar”.

O conclave, marcado pelo isolamento rigoroso e bloqueadores de sinal, terá seu desfecho simbolizado pela fumaça branca ou preta da Capela Sistina. Seja qual for o resultado, a eleição testemunhará um embate entre tradição e mudança, com reverberações globais.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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