De ‘Gold Card’ a Congelamento: O Roteiro de Trump para Redesenhar a Imigração nos EUA

O anúncio feito pelo governo dos Estados Unidos nesta quarta-feira (14/01) de congelar a emissão de vistos de imigração para cidadãos de 75 países, incluindo o Brasil, é apenas a peça mais recente em um amplo quebra-cabeça de restrições. Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, o presidente Donald Trump tem implementado uma série de mudanças drásticas nas regras de entrada no país, que vão desde o aumento exponencial de custos e burocracia até a suspensão pura e simples de categorias inteiras de vistos. O objetivo declarado é priorizar trabalhadores americanos e a segurança nacional, mas o efeito prático está redefinindo os fluxos migratórios globais.

Trump aprovou o gold card, que permite a estrangeiros adquirir residência americana pagando US$ 1 milhão — Foto: Mandel Ngan/Getty Images via BBC

As políticas adotadas podem ser agrupadas em três grandes eixos: a criação de barreiras financeiras, o aumento da vigilância e burocracia, e as restrições diretas à entrada.

No primeiro eixo, o aumento de custos emerge como uma ferramenta poderosa. Em setembro de 2025, o governo instituiu uma taxa de US$ 100 mil (cerca de R$ 530 mil) para o visto H-1B, voltado a trabalhadores estrangeiros altamente qualificados em áreas como tecnologia e engenharia. A medida, que segundo a Casa Branca busca incentivar a contratação local, é criticada por especialistas por poder afastar talentos globais. Outra medida é a exigência de um caução de até US$ 15 mil para vistos de turismo e negócios de cidadãos de 38 países, com o objetivo de coibir a permanência além do prazo autorizado.

Paradoxalmente, na contramão do endurecimento geral, Trump lançou em dezembro de 2025 o chamado “Gold Card”. Este programa concede residência permanente a estrangeiros mediante um investimento direto de US$ 1 milhão para indivíduos ou US$ 2 milhões para empresas que desejam realocar funcionários. Até o momento, cerca de 10 mil pessoas já realizaram o pré-registro, pagando uma taxa inicial não reembolsável de US$ 15 mil.

O segundo eixo é o da burocracia e vigilância ampliadas. Desde junho de 2025, candidatos a vistos de estudante são obrigados a manter seus perfis em redes sociais abertos para análise das autoridades migratórias, numa busca por “indícios de hostilidade”. Uma proposta apresentada em dezembro pretende estender essa exigência para turistas de países isentos de visto, como Alemanha e Japão, que teriam que fornecer um histórico de cinco anos de atividade online. Além disso, desde outubro, a obrigatoriedade de entrevistas presenciais foi estendida para menores de 14 e maiores de 79 anos de praticamente todos os países, incluindo o Brasil.

O terceiro e mais contundente eixo é o das restrições diretas. Além do congelamento anunciado para 75 países, o governo Trump já revogou, desde janeiro de 2025, mais de 100 mil vistos – um número recorde para o período, segundo balanço do Departamento de Estado. Em 2025, também foi decretada a proibição total de entrada de cidadãos de 19 países, a maioria na África, sob alegações de segurança nacional e combate ao terrorismo.

O conjunto de medidas implementadas por Trump constrói um novo paradigma para a imigração nos EUA, marcado por seletividade extrema e por uma lógica que mistura interesses econômicos com uma retórica de segurança. De um lado, portas se fecham para milhões através de custos proibitivos, suspensões e banimentos. De outro, abrem-se caminhos exclusivos para quem pode pagar um preço altíssimo, como no caso do “Gold Card”.

Este redesenho impõe desafios imediatos para países como o Brasil, que vê seus cidadãos enfrentarem obstáculos inéditos para estudar, trabalhar ou mesmo visitar os Estados Unidos. A longo prazo, a estratégia de Trump pode reconfigurar não apenas a demografia americana, mas também a posição do país como um polo de atração de cérebros e investimentos globais, com consequências ainda difíceis de mensurar para sua economia e influência no mundo.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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