Em meio ao avanço das propostas que tramitam no Congresso para reduzir a jornada de trabalho e acabar com a escala 6×1, o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, faz um alerta contundente: a sociedade ainda não está ciente dos custos econômicos da mudança. Para ele, quando o consumidor entender que vai “pagar a conta” por meio de preços mais altos, a popularidade do tema pode ruir.

Em entrevista à BBC News Brasil, Solmucci não poupa críticas à condução do debate, que classifica como marcado por um “governo oportunista, Congresso refém de eleições e empresariado omisso”, resultando em uma “sociedade desinformada”. A seguir, os principais pontos da visão do setor sobre uma das pautas mais sensíveis do ano eleitoral.
📊 O Cálculo do Impacto: Quem Pagará a Conta?
Solmucci parte de um cálculo objetivo para defender sua tese. Se um funcionário que trabalha seis dias por semana (6×1) passar a trabalhar cinco, mantendo o mesmo salário, o custo para o empregador aumenta. Para manter o negócio aberto todos os dias, será necessário contratar mais pessoas.
Segundo ele, no setor de bares e restaurantes, isso representaria um aumento de custo com mão de obra de cerca de 20%. Esse custo, inevitavelmente, seria repassado ao consumidor final na forma de um reajuste de preços estimado entre 7% e 8%.
A pergunta que o empresário faz é direta: “O consumidor está ciente disso? Ele concordaria com a redução da jornada para pagar mais [pelo serviço ou produto]?”.
🏭 O Problema da Oferta de Mão de Obra e da Produtividade
Além do custo, Solmucci aponta um segundo gargalo: a disponibilidade de trabalhadores. Com o Brasil registrando taxas de desemprego historicamente baixas (5%), setores como o de bares e restaurantes já enfrentam 500 mil vagas abertas. Uma mudança na legislação que exigisse 20% mais funcionários agravaria essa disputa por mão de obra, criando um “colapso” e uma “queda abrupta na qualidade de serviço das regiões mais pobres e dos pequenos negócios”.
O presidente da Abrasel argumenta que o debate no Brasil ignora a questão central: a produtividade. “Nenhuma nação foi capaz de enriquecer e pagar melhor sem antes promover ganhos de produtividade relevantes”, afirma. Para ele, a obsessão nacional deveria ser como ganhar produtividade para, então, poder pagar mais e trabalhar menos.
🔄 Trabalho Intermitente como Alternativa e o Papel do Governo
Questionado sobre o que a legislação poderia mudar, Solmucci defendeu a ampliação do uso do trabalho intermitente, modalidade criada na Reforma Trabalhista de 2017 e recentemente confirmada como constitucional pelo STF. Ele vê nesse modelo uma forma de o trabalhador escolher quantos dias e horas quer trabalhar, adequando-se às necessidades atuais, especialmente dos mais jovens.
O empresário também criticou o que vê como falta de alinhamento no governo. Citou falas recentes de ministros: enquanto Luiz Marinho (Trabalho) e Fernando Haddad (Fazenda) pediam cautela e mais estudos, Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) defendia urgência constitucional para a pauta. “Ou o governo não está se entendendo ou ele mudou seu foco de dezembro para cá”, disparou.
⚖️ O Caminho do Debate no Congresso
Para Solmucci, o encaminhamento do presidente da Câmara, Hugo Motta, que levou a PEC à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) para um debate mais aprofundado, foi “muito positivo”. Isso evita o que ele classifica como uma “irresponsabilidade”: a aprovação relâmpago em regime de urgência, sem ouvir todos os setores.
A posição da Abrasel, segundo ele, é por uma transição cautelosa e longa, semelhante à da Reforma Tributária, e que considere medidas compensatórias, como a desoneração da folha de pagamento, para mitigar os impactos. “O que tenho buscado levar ao debate é esta questão para o cidadão brasileiro — se ele conhece o custo e se ele topa”, conclui.
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