A China executou 11 membros da família Ming, um influente clan mafioso que, até 2023, controlava centros de golpes pela internet e tráfico de pessoas na cidade de Laukkaing, em Mianmar. As execuções, confirmadas pela mídia estatal chinesa nesta quinta-feira (29), são um contundente recado de Pequim no combate a crimes transfronteiriços que vitimam milhares de cidadãos chineses.

Os condenados foram julgados e sentenciados à morte em setembro de 2025 por um tribunal da província de Zhejiang por crimes como homicídio, cárcere privado, fraude e operação de cassinos ilegais. Seus esquemas arrecadaram mais de 10 bilhões de yuans (cerca de R$ 7,48 bilhões) entre 2015 e 2023 e, segundo a Suprema Corte chinesa, causaram a morte de 14 cidadãos do país.
🏛️ Contexto Geopolítico: A Queda do Império Ming
A queda dos Ming está diretamente ligada a uma mudança no tabuleiro geopolítico de Mianmar. Frustrada com a inação do exército birmanês contra os golpes (dos quais também se beneficiava), a China apoiou tacitamente uma ofensiva de uma aliança rebelde étnica no final de 2023. Esse grupo capturou Laukkaing, prendeu os líderes do clan e os extraditou para a China para enfrentarem a justiça.
Esta não é uma operação isolada. Cinco membros de outra família poderosa, os Bai, também foram condenados à morte em novembro, e os julgamentos dos clãs Wei e Liu estão em andamento. As confissões dos detidos foram exibidas em documentários estatais como parte de uma campanha pública para demonstrar a determinação do governo.
🎯 A “Vila do Tigre Agachado” e o Modelo Criminoso
Sob o comando do patriarca Ming Xuechang (que cometeu suicídio em 2023 ao tentar evitar a captura), o clan administrava um dos centros de golpes mais notórios: a “Vila do Tigre Agachado”. O modelo de negócio evoluiu de cassinos e prostituição para fraudes online em larga escala, operadas por vítimas de tráfico humano sequestradas ou atraídas por falsas promessas de emprego.
Dentro desses complexos fortificados, os trabalhadores eram submetidos a condições análogas à escravidão, com espancamentos e tortura sendo práticas comuns, conforme relatos de sobreviventes. A ONU estima que centenas de milhares de pessoas tenham sido traficadas para trabalhar nesses esquemas em todo o Sudeste Asiático.
⚖️ O Recado de Pequim e o Deslocamento do Crime
Com as execuções, Pequim envia uma mensagem forte tanto para os criminosos quanto para autoridades regionais: não tolerará atividades que prejudiquem maciçamente seus cidadãos e destabilizem sua fronteira. No entanto, especialistas alertam que o problema não foi erradicado, mas sim deslocado.
As operações criminosas migraram para outras áreas com menos influência direta da China, como a fronteira entre Mianmar e Tailândia, além de Camboja e Laos. O combate a essas redes, portanto, exigirá uma cooperação internacional ainda mais complexa e desafiadora nos próximos anos.
As execuções dos Ming marcam um capítulo decisivo, porém violento, na luta contra um fenômeno criminoso de escala industrial. Elas demonstram a disposição chinesa de usar seu poder de forma assertiva além de suas fronteiras para proteger seus interesses nacionais, ao mesmo tempo em que revelam os limites de uma ação puramente unilateral contra um crime organizado de caráter global e altamente adaptável.
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