Caso Master Gera Tensão Institucional Após Toffoli Criticar Polícia Federal

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli abriu um novo e ruidoso conflito institucional ao criticar publicamente a forma como a Polícia Federal conduziu a segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes no Banco Master. A decisão judicial do ministro, que chegou a acusar a corporação de “falta de empenho” e “inobservância expressa e deliberada” de suas ordens, elevou a temperatura entre órgãos fundamentais do sistema de justiça e trouxe à tona temores sobre fragilidades no curso da investigação.

Ministro Dias Toffoli durante a Sessão Plenária realizada em 20 de junho de 2024. Foto: Andressa Anholete/STF

A crise foi desencadeada pela cronologia dos fatos. Toffoli autorizou a operação na segunda-feira (12) e determinou que os mandados fossem cumpridos em até 24 horas, ou seja, até a terça-feira. A Polícia Federal, no entanto, só colocou a ação em campo na manhã da quarta-feira (14), alegando questões operacionais que não configurariam má-fé ou descumprimento intencional da ordem. Na sua avaliação, o ministro não aceitou a justificativa e sugeriu que a PF teria feito um “corpo mole”, colocando na conta da corporação eventuais prejuízos ao andamento do caso.

A tensão aumentou com uma segunda decisão polêmica de Toffoli. Inicialmente, ele determinou que todos os bens apreendidos durante a operação fossem lacrados e trazidos para a sede do STF, em vez de seguirem diretamente para a perícia da Polícia Federal. A medida gerou apreensão entre investigadores, que temiam a perda de informações cruciais em aparelhos eletrônicos devido a uma possível demora na análise. Sob pressão, o ministro recuou no início da noite de quarta-feira e transferiu a guarda e a análise dos materiais para a Procuradoria-Geral da República (PGR).

O clima de atrito chamou a atenção de outras instituições. Em um gesto interpretado como apoio à Polícia Federal, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, realizou uma visita institucional ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, no mesmo dia. O BC está sob escrutínio do Tribunal de Contas da União (TCU) pelo seu papel na liquidação extrajudicial do Banco Master. Paralelamente, no Congresso, defensores da criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o caso veem nos embates novos argumentos para pressionar pela investigação parlamentar, embora setores majoritários, como o Centrão, ainda resistam à ideia, especialmente em um ano eleitoral.

Os embates públicos entre o ministro Toffoli e a Polícia Federal no Caso Master expõem fissuras preocupantes no sistema de Justiça brasileiro. Mais do que uma simples divergência de prazos, a crise revela um ambiente de desconfiança mútua que pode abrir brechas processuais e colocar em risco a própria integridade da investigação criminal. Enquanto as instituições se digladiam publicamente, cresce o temor entre parlamentares e operadores do Direito de que o foco seja desviado da apuração dos fatos para a judicialização de conflitos de competência, o que, no limite, poderia até ameaçar a validade de todo o processo. O episódio serve como um alerta sobre os riscos da politização e da falta de sintonia entre os Poderes, que podem minar a eficácia da Justiça em casos de grande complexidade.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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