A tragédia nas profundezas: quem eram os mergulhadores italianos que morreram nas cavernas das Maldivas

Corpos de quatro dos cinco turistas desaparecidos foram localizados; operação de resgate já custou a vida de um militar maldívo e expõe os riscos extremos do mergulho técnico

Da esquerda para a direita Muriel Oddenino, Federico Gualtieri, Monica Montefalcone, Gialunca Benedetti and Giorgia Sommacal, mergulhadores italianos que morreram nas Maldivas  • Reprodução CNN via Facebook/University of Genoa/Albatros Top Boat/Instagram

A comoção tomou conta das Maldivas e da Itália após a confirmação da morte de cinco mergulhadores italianos que desapareceram enquanto exploravam cavernas submarinas no Atol de Vaavu. Os corpos de quatro deles foram localizados nesta segunda-feira (18), em uma operação complexa e perigosa que já custou a vida de um mergulhador militar maldívo. O quinto corpo, do instrutor Gianluca Benedetti, havia sido encontrado na quinta-feira (14) — mesmo dia do mergulho — na entrada da caverna.

As vítimas faziam parte de uma expedição de mergulho a bordo do navio Duke of York. Um sexto mergulhador decidiu não entrar na água e sobreviveu. A tragédia expõe os riscos extremos do mergulho em cavernas profundas e levanta questionamentos sobre a legalidade da operação, já que a profundidade ultrapassou em muito o limite recreativo de 30 metros estabelecido por lei nas Maldivas.


🕯️ Quem eram as vítimas

Os mergulhadores mortos foram identificados como:

  • Gianluca Benedetti (instrutor de mergulho): seu corpo foi o primeiro a ser encontrado, ainda na quinta-feira, na entrada da caverna.
  • Monica Montefalcone (professora associada de ecologia da Universidade de Gênova): mergulhadora experiente, havia sobrevivido ao tsunami de 2004 enquanto mergulhava no Quênia.
  • Giorgia Sommacal (filha de Monica): acompanhava a mãe na expedição.
  • Federico Gualtieri (biólogo marinho).
  • Muriel Oddenino (pesquisadora).

A família de Monica e Giorgia está devastada. Carlo Sommacal, marido de Monica e pai de Giorgia, disse à TV italiana que não sabe o que pode ter causado o acidente, dado que sua esposa era “uma mergulhadora cuidadosa e disciplinada, que jamais colocaria sua filha ou outros colegas em risco”. Ele lembrou que ela costumava dizer a ele: “Essa eu consigo fazer, você não.”

🕳️ O local da tragédia: uma caverna a 70 metros de profundidade

A caverna marinha onde o grupo mergulhou está localizada no Atol de Vaavu, uma das regiões mais bonitas e também mais perigosas das Maldivas para o mergulho técnico. No ponto mais profundo, a caverna atinge 70 metros abaixo da superfície — o equivalente à altura de um prédio de 20 andares.

O mergulho em cavernas é considerado uma das modalidades mais arriscadas do esporte. Os riscos incluem:

  • Passagens estreitas que dificultam a locomoção e a saída.
  • Fortes correntes imprevisíveis que podem arrastar os mergulhadores.
  • Sedimento no fundo: ao tocar as paredes ou o chão, o lodo suspenso reduz drasticamente a visibilidade.
  • Narcose por nitrogênio: em profundidades superiores a 30 metros, o ar comprimido pode causar estado de intoxicação temporária, prejudicando o julgamento.
  • Doença descompressiva: a rápida subida à superfície sem os devidos intervalos pode ser fatal.

John Volanthen, oficial de mergulho do Conselho Britânico de Resgate em Cavernas (que atuou no resgate dos garotos tailandeses em 2018), afirmou que o lodo e a profundidade são os fatores que mais dificultam as operações. “Normalmente, mergulhadores em cavernas estabelecem uma linha-guia para encontrar o caminho de volta. É isso que possivelmente aconteceu com o grupo desaparecido”, disse à CNN.

🚨 A operação de resgate: um sucesso com gosto amargo

A tentativa de recuperar os corpos evidenciou o perigo extremo da missão. No sábado (16), o sargento Mohamed Mahudhee (Força de Defesa Nacional das Maldivas) morreu durante uma segunda missão de recuperação. As autoridades acreditam que Mahudhee tenha sucumbido à doença descompressiva — causada por uma rápida diminuição da pressão ao redor, seja do ar ou da água.

Cada mergulho em missão de recuperação teve duração limitada a cerca de três horas devido às necessidades de oxigênio e descompressão. As condições eram extremamente desafiadoras, com fortes correntes imprevisíveis, passagens estreitas e escuridão total por todo o local.

Nesta segunda-feira (18), os corpos de Monica, Giorgia, Federico e Muriel foram localizados na parte mais profunda da gruta. O plano agora é recuperar dois deles na terça-feira (19) e os outros dois na quarta-feira (20).

Mergulhadores internacionais — incluindo especialistas da DAN (Divers Alert Network) da Finlândia — uniram-se à equipe maldíva para auxiliar na operação, utilizando scooters subaquáticas e cilindros de gás especializados que reciclam o ar, permitindo maior tempo submerso.

⚖️ A legalidade do mergulho: investigação em curso

Uma investigação está em andamento para apurar o que aconteceu com os mergulhadores — e se a operação violou a lei local.

“Para mergulho recreativo e comercial, por lei, ninguém tem permissão para ir além de 30 metros e, infelizmente, parece que isso aconteceu muito mais fundo, porque até a entrada da caverna fica a quase 50 metros de profundidade”, afirmou Mohamed Hussain Shareef, principal porta-voz do governo das Maldivas.

A licença da embarcação Duke of York foi suspensa até a conclusão da investigação. A operadora turística italiana Albatros Top Boat, responsável pela viagem, negou ter autorizado ou sequer ter conhecimento do mergulho em profundidade. “Não sabia que o grupo planejava descer além dos 30 metros. Jamais teria permitido”, declarou a advogada da empresa ao jornal Corriere della Sera.

🇮🇹 A comoção na Itália e nas Maldivas

A tragédia abalou profundamente as relações entre Itália e Maldivas, países com forte laço turístico. A Itália foi uma das primeiras nações a introduzir o turismo no arquipélago, e os italianos são presença constante no país.

“A Itália tem uma relação muito especial conosco no que diz respeito ao turismo. A população local está devastada não apenas porque este é o maior acidente de mergulho já registrado no país, mas também porque são italianos”, disse Shareef.

O presidente das Maldivas, Mohamed Muizzu, enviou suas condolências ao presidente italiano Sergio Mattarella e às famílias das vítimas. O enviado de Roma ao país juntou-se às equipes de resgate a bordo de um navio da guarda costeira.


Conclusão: uma tragédia que expõe os limites do mergulho extremo

A morte dos cinco mergulhadores italianos nas cavernas das Maldivas é um lembrete sombrio de que, mesmo para os mais experientes, o mergulho técnico em ambientes confinados e profundos é uma atividade de altíssimo risco. A falta de uma linha-guia, a profundidade excessiva (quase o dobro do limite legal), as correntes imprevisíveis e o lodo no fundo podem ter transformado uma aventura em uma armadilha mortal.

A perda do sargento Mahudhee durante a operação de resgate adiciona uma camada extra de tragédia à história. O militar morreu tentando trazer de volta os corpos de quem já não tinha mais chance de sobreviver.

Para as famílias das vítimas — e para a comunidade de mergulhadores ao redor do mundo — resta a dor e o mistério. O que exatamente aconteceu lá embaixo? Por que o grupo não seguiu os protocolos de segurança (linha-guia, limites de profundidade, cilindros de ar adequados)? A investigação trará respostas, mas não trará de volta os que se foram.

Nas Maldivas, paraíso turístico de águas cristalinas, a tragédia deixará marcas profundas. As cavernas do Atol de Vaavu, antes um ponto de atração para mergulhadores aventureiros, agora carregam o peso de uma história de morte e luto. E os mergulhos em profundidade — que exigem técnica, preparo e respeito às leis — ganham um novo, e triste, capítulo de alerta.

Reportagem produzida com base em informações da CNN Brasil publicadas em 18 de maio de 2026

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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