“Cada um por si”: Centrão vê neutralidade como caminho após áudio de Flávio Bolsonaro a Vorcaro

União Brasil, PP e Republicanos tendem a liberar filiados na disputa presidencial, abandonando aliança com o PL; crise no Master abalou negociações regionais e isolou o senador


A cúpula do Centrão decidiu adotar a neutralidade na corrida presidencial após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecer em áudios pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. União Brasil, PP e Republicanos — partidos que controlam a maior fatia do fundo eleitoral e do tempo de televisão — ainda não bateram o martelo oficialmente, mas a tendência é liberar seus filiados para apoiar o candidato que desejarem, abandonando qualquer compromisso formal com o PL.

A decisão representa um duro golpe na campanha de Flávio, que nunca teve o aval das cúpulas do Centrão desde que foi escolhido por Jair Bolsonaro para concorrer ao Palácio do Planalto. As legendas, que flertavam com o bolsonarismo e mantinham pontes com o ex-presidente, agora recuam diante do desgaste provocado pelo escândalo do Master.

A crise também interrompeu negociações regionais para a formação de palanques em estados-chave, alterou o panorama eleitoral em Minas Gerais, Santa Catarina e na Bahia, e aprofundou o isolamento político do filho do ex-presidente.


🏛️ Centrão: neutralidade como estratégia de sobrevivência

A neutralidade não é uma escolha ideológica, mas pragmática. Integrantes da cúpula do PP, União Brasil e Republicanos avaliam que o melhor formato para a legenda na disputa deste ano é aquele que permite a eleição do maior número possível de deputados federais e senadores.

No PP, um integrante da Executiva Nacional resume o raciocínio: líderes locais ficarão livres para construir alianças que os fortaleçam em seus estados — o que, em algumas regiões, significa aproximação com o presidente Lula (PT); em outras, com o bolsonarismo e grupos da direita; e, em muitas, com candidatos de centro, como Romeu Zema (Novo) ou Ronaldo Caiado (PSD).

O União Brasil, dividido entre ministros do governo Lula e uma ala próxima ao bolsonarismo, caminha para a mesma posição. A derrota de Jorge Messias para o STF — articulada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) — afastou ainda mais o partido de uma aliança com Lula, mas não o aproximou de Flávio.

O Republicanos, que se sentiu preterido nas negociações de alianças tanto por Flávio quanto por Lula, também sinalizou que o caminho é a neutralidade. O presidente da sigla, deputado Marcos Pereira (SP), já reclamou da pressão do PL para filiar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e afirmou, em entrevista recente, que não há discussão sobre substituir Flávio por Michelle Bolsonaro na chapa presidencial.

🎯 O efeito dominó nos estados

A decisão do Centrão de adotar a neutralidade já produziu efeitos concretos em estados estratégicos:

Santa Catarina: O governador Jorginho Mello (PL), que busca a reeleição, era esperado como principal palanque de Flávio no estado. Agora, o ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues (PSD), pré-candidato a governador pelo partido de Ronaldo Caiado, disse que deve dar um palanque único para o presidente do PSD e buscar se desvincular de Flávio. “Ficar em silêncio é o melhor caminho”, afirmou.

Minas Gerais: O ex-governador Romeu Zema (Novo) foi o primeiro a atacar publicamente Flávio após a divulgação do áudio, afirmando ser “imperdoável” ouvir o senador pedindo dinheiro a Vorcaro. A reação provocou forte irritação no PL, que decidiu abandonar qualquer tentativa de composição com o grupo de Zema no estado e aprofundou a aproximação com o Republicanos, do senador Cleitinho Azevedo.

Bahia: Apesar da tendência de convivência regional entre o bolsonarismo e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União), a cúpula da federação União-PP freou as tratativas nacionais com Flávio.

Ceará: O ex-governador Ciro Gomes (PSDB) lançou sua pré-candidatura ao governo estadual no sábado (16) e, segundo aliados, não vai tratar de Presidência — apenas do governo do estado. “Ciro não vai tratar de Presidência. Somente de governo do estado”, disse o deputado Mauro Benevides Filho (União-CE).

💔 A mágoa do PP com Flávio

A crise do Master já havia provocado um afastamento entre Flávio e lideranças do Progressistas antes mesmo da divulgação do áudio. Há duas semanas, a Polícia Federal fez operação de busca e apreensão contra o presidente da sigla, senador Ciro Nogueira (PI), após identificar mensagens em que Vorcaro questiona seu primo, Felipe Vorcaro, sobre o atraso nos pagamentos destinados ao senador.

No mesmo dia da operação da PF, Flávio deu declarações que indicavam o afastamento de Ciro Nogueira — o que irritou a cúpula do PP. Investigações consideram que os repasses a Ciro eram propina em troca do favorecimento do Master na elaboração de legislação sobre o limite de proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A mágoa do PP com Flávio agora se soma ao desgaste geral do áudio, tornando improvável qualquer aliança formal entre as siglas no primeiro turno.

👀 Há plano B? A hipótese Tereza Cristina-Michelle

Alguns parlamentares do Centrão mais ligados à direita chegaram a sugerir nomes para substituir Flávio na disputa. A ideia seria emplacar uma chapa com a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como candidata a presidente e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) como vice.

A discussão, no entanto, não está na mesa das cúpulas das legendas e é tratada como especulação de grupos minoritários. O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, nega ter conversado sobre o assunto. O deputado Elmar Nascimento (União-BA) e o deputado Cláudio Cajado (PP-BA) afirmam que o tema é citado por alguns parlamentares, mas que “as lideranças não” estão discutindo.

📉 Flávio se isola

A reunião que o PL marcou para esta terça-feira (19) entre Flávio e as bancadas de senadores e deputados federais da sigla será a primeira grande reunião do partido após a crise. Desde a divulgação do áudio, Flávio já se aconselhou com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, com o senador Rogério Marinho (PL-RN) e com o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas os encontros foram restritos.

A percepção nos bastidores é de que Flávio está cada vez mais isolado — e que o Centrão, que nunca o abraçou, agora o abandona de vez.


A neutralidade que enterra a aliança

A decisão do Centrão de adotar a neutralidade na corrida presidencial não é um movimento de última hora, mas a formalização de um divórcio que já vinha sendo costurado desde que Flávio foi escolhido candidato. O senador nunca teve o aval das cúpulas do União Brasil, PP e Republicanos — e agora, com o áudio a Vorcaro, qualquer chance de aliança evaporou.

A neutralidade permite que cada diretório estadual do Centrão apoie o candidato que melhor lhe convier: Lula em alguns estados, Zema ou Caiado em outros, ou até mesmo Flávio onde o bolsonarismo ainda for majoritário. Mas, na prática, significa que o PL disputará a eleição presidencial sem o apoio das maiores legendas do centro — um cenário que torna a reeleição de Lula ainda mais provável.

Para Flávio, o recado é claro: o Centrão não o salvará. Para Lula, é um respiro: o principal adversário do PT está cada vez mais só. Para a eleição de 2026, o movimento confirma que o eixo da disputa será entre o petista e o bolsonarismo, com o centro flutuante — mas não comprometido.

Reportagem produzida com base em informações do O Globo publicadas em 19 de maio de 2026

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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