O rombo bilionário de “Dark Horse”: quanto o filme sobre Bolsonaro precisaria arrecadar para pagar Vorcaro?

Produção da cinebiografia do ex-presidente teria custado R$ 134 milhões financiados pelo banqueiro do Master; especialistas apontam que, para recuperar o investimento, longa precisaria bater recordes históricos de bilheteria – e ainda assim seria um “negócio falho”


A cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulada “Dark Horse” (Azarão, em tradução livre), tornou-se o mais novo capítulo do escândalo envolvendo o Banco Master e seu fundador, Daniel Vorcaro. Segundo revelações, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria pedido R$ 134 milhões ao banqueiro para custear a produção do filme – um valor tão astronômico quanto o orçamento de superproduções de Hollywood.

Mas qual é o tamanho do rombo? A BBC News Brasil consultou especialistas da indústria cinematográfica para calcular quanto “Dark Horse” precisaria arrecadar nas bilheterias para que Vorcaro recuperasse seu investimento. O resultado é desolador para qualquer produção nacional: mesmo que o filme batesse recordes históricos, ainda assim o negócio seria considerado “falho do ponto de vista comercial”.


🎬 A conta que não fecha: R$ 300 milhões de bilheteria

Especialistas da indústria cinematográfica ouvidos pela BBC, sob condição de anonimato, fizeram as contas. Para que Vorcaro recuperasse os R$ 134 milhões investidos (considerando apenas o valor pedido por Flávio, sem juros ou correção), “Dark Horse” precisaria arrecadar pelo menos R$ 300 milhões nas bilheterias brasileiras.

O cálculo leva em conta a regra básica da indústria: metade da arrecadação fica com os cinemas. Dos 50% restantes, a distribuidora fica com 20% a 30%, restando aos produtores algo entre 20% e 25% do total arrecadado. Mesmo em um cenário generoso – em que a distribuidora cobrasse apenas 15% –, o filme precisaria faturar R$ 300 milhões para que Vorcaro visse a cor do seu dinheiro de volta.

Isso equivale a:

  • 40% a mais do que todos os filmes brasileiros lançados em 2025 arrecadaram juntos (R$ 215 milhões)
  • O dobro do filme nacional mais bem-sucedido da história, “Minha Mãe É uma Peça 3” (R$ 143,8 milhões)
  • Mais de 15 milhões de ingressos vendidos (considerando o preço médio de R$ 19,88 por bilhete)
  • Números comparáveis a superproduções globais como “Vingadores: Ultimato” e “Titanic”

E essa conta ainda não inclui o custo de produção do filme – pagamento de atores, roteiristas, diretores, editores, figurantes e toda a logística. Se isso for adicionado, “Dark Horse” precisaria arrecadar ainda mais, possivelmente superando “Divertida Mente 2”, que fez mais de R$ 400 milhões no Brasil.

🎥 Por que “Dark Horse” é um “negócio falho”

Para os profissionais do setor consultados pela BBC, “Dark Horse” – se realmente custou mais de R$ 100 milhões – é um “negócio falho do ponto de vista comercial”. Os motivos são estruturais:

  1. Distribuição limitada: O Brasil tem cerca de 3.500 salas de cinema, concentradas no Sul e Sudeste. 419 cidades têm ao menos uma sala. Cidades onde Bolsonaro teve seu melhor desempenho eleitoral – como em Roraima, Rondônia e Acre – têm pouquíssimas ou nenhuma sala.
  2. Concorrência com Hollywood: Grandes estúdios têm contratos de longa data com as redes exibidoras, garantindo a maior parte das salas e horários para seus lançamentos. Um filme nacional, por maior que seja seu apelo político, luta por espaço.
  3. Marketing agressivo: Para atingir números tão altos, um filme precisa de uma campanha de divulgação maciça – comerciais na TV, parcerias com marcas, produtos licenciados. “Divertida Mente 2”, da Disney, estampou perfumes, esmaltes, chinelos e roupas em lojas populares meses antes da estreia.
  4. Data de lançamento: Superproduções têm suas estreias definidas com anos de antecedência, evitando eventos como Copa do Mundo. “Dark Horse” nem sequer tem previsão de lançamento ou registro na Ancine.

🕵️ As contradições da família Bolsonaro

A confusão em torno do financiamento de “Dark Horse” é tamanha que os próprios envolvidos dão versões contraditórias:

  • Flávio Bolsonaro admitiu ter pedido os R$ 134 milhões a Vorcaro, afirmando que o banqueiro era um “investidor em busca de retorno financeiro”.
  • A produtora Go Up Entertainment e o roteirista Mario Frias negam ter recebido qualquer verba do banqueiro.
  • Eduardo Bolsonaro primeiro disse que apenas cedeu os direitos de uso da própria imagem; depois admitiu ter assinado contrato para gerir financeiramente a produção.

Segundo o site The Intercept Brasil, parte da verba de Vorcaro teria sido transferida para um fundo de investimentos no Texas gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, que teve o mandato de deputado cassado e hoje vive nos Estados Unidos.

A BBC procurou a produtora para esclarecimentos, mas não obteve retorno.

🌍 Streaming e exterior: alternativas improváveis

Algumas alternativas foram consideradas, mas descartadas pelos especialistas:

  • Lançamento internacional: “Dark Horse” é gravado em inglês e protagonizado por Jim Caviezel (Jesus em “A Paixão de Cristo”), mas a indústria duvida que o filme tenha distribuição ampla nos EUA ou na Europa. Festivais internacionais não devem selecionar a obra.
  • Streaming: Plataformas pagas (Netflix, Amazon, etc.) compram direitos de exibição por um valor fixo, não por visualização. Esse valor costuma ser muito inferior ao que se arrecadaria nos cinemas. Plataformas gratuitas (YouTube) pagam centavos por visualização.

Para fechar a conta, seria preciso contar com o streaming como uma segunda janela de exibição (após os cinemas) e com licenciamentos para TV, DVDs (hoje objeto de colecionador) e sistemas de entretenimento de bordo. Nada que chegue perto dos R$ 300 milhões necessários.

💰 Mas afinal, por que investir em um filme que não dá lucro?

A pergunta que fica é: por que Daniel Vorcaro investiria R$ 134 milhões em um filme com retorno financeiro tão improvável?

Os especialistas ouvidos pela BBC têm uma resposta: vaidade e apoio político.

  • Vaidade: O universo do cinema é glamouroso. Tapetes vermelhos, festas, estrelas – para alguns empresários, investir em um filme é uma forma de status.
  • Apoio político: “Dark Horse” é uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, cujo filho Flávio é pré-candidato à Presidência. O investimento pode ser visto como uma forma de financiar a causa bolsonarista e, em última análise, a campanha eleitoral.

Flávio Bolsonaro nega que Vorcaro fosse um “doador de campanha” disfarçado. Mas o fato de o filme ainda não ter previsão de lançamento – e de a produção estar envolta em segredos sobre seu financiamento – alimenta as suspeitas.


Um azarão que nasceu derrotado

O título “Dark Horse” (azarão) é irônico. No mundo do cinema, o filme da família Bolsonaro nasce derrotado: seu orçamento é superfaturado, sua bilheteria potencial é ínfima, e seu retorno financeiro é matematicamente improvável.

Se Vorcaro realmente desembolsou R$ 134 milhões, é muito provável que nunca veja esse dinheiro de volta – a menos que “Dark Horse” faça algo que nenhum filme nacional jamais conseguiu: arrecadar mais de R$ 300 milhões no Brasil, superar “Divertida Mente 2” e entrar para o clube seleto de blockbusters globais.

Para os produtores e diretores consultados pela BBC, o caso é um exemplo clássico de como o cinema pode ser usado para outros fins que não o lucro – seja a vaidade pessoal, seja o apoio político. O prejuízo, se confirmado, será de Vorcaro. O legado, porém, será da família Bolsonaro: o de ter transformado uma cinebiografia em mais um capítulo do escândalo do Banco Master.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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