Liberação de recursos acelera após ritmo lento no início do mês; senadores da oposição estão entre os mais contemplados; AGU indicado ao STF será sabatinado nesta quarta-feira (29)

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) empenhou cerca de R$ 12 bilhões em emendas parlamentares ao longo de abril, em uma aceleração significativa que ocorre às vésperas da sabatina do advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF). O montante representa uma virada em relação ao início do mês, quando o governo havia empenhado apenas R$ 389,8 milhões — menos de 2% dos R$ 17,3 bilhões que precisa pagar até 30 de junho.
Dos R$ 12 bilhões empenhados em abril, R$ 10,7 bilhões estão dentro do cronograma de pagamentos obrigatórios do primeiro semestre, estabelecido pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O calendário prevê o pagamento de 65% das emendas individuais e de bancada destinadas a fundos de saúde, assistência social e às chamadas “emendas PIX” — transferências especiais que podem ser aplicadas em qualquer finalidade.
O aumento no ritmo de empenho ocorre em um momento político delicado: Messias será sabatinado nesta quarta-feira (29) pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Para ter o nome aprovado na comissão, ele precisa de pelo menos 14 votos. Se aprovado, segue para o plenário, onde necessita de 41 votos para se tornar ministro do STF.
📊 A virada no empenho de emendas
Dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop), compilados pelo G1, mostram a disparada no empenho de emendas ao longo de abril. O governo saiu de um patamar de R$ 389,8 milhões empenhados no início do mês para R$ 10,7 bilhões empenhados até o dia 24 de abril dentro das verbas obrigatórias do primeiro semestre.
O empenho de uma emenda significa que o governo separou o montante para pagamento, assumindo o compromisso de liberar o recurso. O pagamento efetivo, no entanto, ainda é lento: até o momento, o governo quitou apenas 2,28% das emendas previstas para o primeiro semestre — R$ 395,2 milhões dos R$ 17,3 bilhões obrigatórios.
Apesar do atraso nos pagamentos, o movimento de empenho é visto por analistas como um sinal político. O governo “reserva” os recursos para os parlamentares, ainda que a liberação efetiva dependa de outros trâmites orçamentários.
🏛️ Os senadores mais contemplados
A distribuição dos recursos empenhados revela que senadores da oposição estão entre os mais beneficiados. O PL, maior bancada do Senado (com 15 senadores), foi a legenda que mais teve recursos separados para pagamento: R$ 479 milhões.
Os três senadores com maior volume de emendas empenhadas foram:
- Eduardo Braga (MDB-AM) – R$ 71,2 milhões
- Romário (PL-RJ) – R$ 68,7 milhões
- Jader Barbalho (MDB-PA) – R$ 62,4 milhões
Além de Romário, outros quatro senadores de oposição aparecem entre os mais contemplados:
- Angelo Coronel (Republicanos-BA) – R$ 55,8 milhões
- Carlos Portinho (PL-RJ) – R$ 46,8 milhões
- Wellington Fagundes (PL-MT) – R$ 45 milhões
- Oriovisto Guimarães (Podemos-PR) – R$ 41,5 milhões
O MDB, que tem nove senadores, teve R$ 372,7 milhões empenhados. O PSD, com 14 senadores, teve R$ 366,2 milhões. O PT, partido de Lula, teve R$ 281,2 milhões.
⚖️ A sabatina de Jorge Messias
A indicação de Jorge Messias ao STF foi anunciada por Lula em novembro de 2025, mas desde então enfrenta resistências no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), trabalhou pela nomeação do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) — que era o preferido de Alcolumbre. Após a indicação de Messias, Alcolumbre chegou a anunciar que a sabatina ocorreria em duas semanas, para evitar que o AGU visitasse senadores e conseguisse os votos necessários.
Agora, com a sabatina marcada para esta quarta, o governo corre para garantir os apoios. O empenho recorde de emendas em abril — inclusive para senadores da oposição — é visto nos bastidores como parte dessa estratégia.
Messias precisa de 14 votos na CCJ e 41 no plenário. O governo trabalha com a expectativa de que o nome seja aprovado, mas a margem é apertada. Senadores de partidos de centro e da própria oposição têm sido cortejados nas últimas semanas.
🗓️ O calendário orçamentário e os próximos passos
O Orçamento da União prevê que o governo pague R$ 17,3 bilhões em emendas obrigatórias até 30 de junho. O não cumprimento do cronograma pode gerar sanções legais e desgaste político com o Legislativo.
Até o momento, o governo pagou apenas R$ 395,2 milhões desses recursos — 2,28% do total. Faltam pouco mais de dois meses para o prazo final, e a pressão será grande para que os pagamentos saiam.
A estratégia do governo tem sido empenhar os recursos (reservar) antes da sabatina, mesmo que o pagamento efetivo ocorra depois. O gesto de “separar” o dinheiro é visto pelos parlamentares como um compromisso e tem peso político imediato.
O peso das emendas na balança do STF
A relação entre liberação de emendas e apoio político no Congresso não é nova na política brasileira. Mas o episódio envolvendo a sabatina de Jorge Messias escancara a prática em um momento de alta visibilidade.
O governo empenhou R$ 12 bilhões em abril — um salto de mais de 3.000% em relação ao início do mês — justamente às vésperas da votação que pode definir o próximo ministro do STF. Os senadores mais beneficiados incluem desde aliados históricos até nomes da oposição, como Romário (PL) e Angelo Coronel (Republicanos).
Coincidência ou não, o movimento é interpretado por analistas como uma tentativa do Planalto de garantir os votos necessários para aprovar seu indicado à mais alta corte do país.
A sabatina de Messias acontece nesta quarta-feira. O resultado dirá se o esforço orçamentário valeu a pena. E, independentemente do desfecho, a imagem de um governo que acelera a liberação de recursos em momentos decisivos de votações importantes tende a perdurar — e a alimentar o debate sobre o uso político do Orçamento.
Reportagem produzida com base em informações do G1 publicadas em 28 de abril de 2026
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