A chegada do ex-presidente Jair Bolsonaro ao 19º Batalhão da Polícia Militar do DF (Papudinha) desencadeou uma série de remanejamentos internos que afetaram outros detentos, gerando críticas e revelando as tensões dentro do sistema prisional. Uma advogada presa preventivamente, Jéssica Castro de Carvalho, de 30 anos, foi removida da Sala de Estado-Maior onde estava para que o espaço fosse destinado exclusivamente a Bolsonaro, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Sua defesa alega que as transferências sucessivas, realizadas para acomodar autoridades, causaram abalo psicológico e físico à detenta, que já havia sido remanejada outras vezes pelo mesmo motivo.

De acordo com o advogado de Jéssica, Alexandre de Melo Carvalho, a cliente dividia uma cela especial – prerrogativa garantida por lei a advogados com inscrição ativa na OAB – quando foi transferida para uma cela menor após a decisão judicial que determinou a alocação de Bolsonaro. “Ela relatou que as mudanças constantes provocaram abalo psicológico, além do desgaste físico de ter que retirar e reorganizar seus pertences repetidamente”, afirmou o defensor. Após o remanejamento, Jéssica e outra advogada passaram a ocupar uma cela próxima à área onde estão detidos o ex-ministro da Justiça Anderson Torres e o ex-diretor da PRF Silvinei Vasques.
A defesa também levantou questões sobre a estrutura da unidade. Relatou que, em novembro, Jéssica passou mal e sofreu uma convulsão dentro da Papudinha, e que não havia equipe médica regular disponível para atendê-la. “Não havia equipe de saúde. Eu mesmo a socorri e acionei o Samu”, declarou o advogado. Fontes do sistema penitenciário, no entanto, sugeriram ao UOL que a determinação de Moraes para assegurar assistência médica a Bolsonaro poderia, de forma indireta, beneficiar outros presos em caso de necessidade.
O caso expõe um contraste entre as regras gerais da unidade e as condições especiais determinadas pelo STF para o ex-presidente. Enquanto os demais detentos da Papudinha têm direito a uma hora diária de banho de sol, visita semanal familiar (incluindo íntima) e possibilidade de trabalho, Bolsonaro cumpre pena em isolamento completo, em cela individual, sem contato com outros presos, circulação em áreas comuns ou refeições compartilhadas.
O remanejamento de Jéssica Carvalho para abrir espaço para Jair Bolsonaro na Papudinha vai além de uma logística carcerária. O episódio simboliza as desigualdades e os privilégios dentro do sistema prisional, onde decisões judiciais para figuras de alto perfil reverberam diretamente na vida de outros detentos, muitas vezes ignorando suas garantias legais específicas, como a prerrogativa da Sala de Estado-Maior para advogados.
A situação também joga luz sobre a precariedade da infraestrutura de saúde em unidades prisionais, um problema crônico que só ganha atenção midiática quando atinge personagens notórios. Enquanto a defesa de Bolsonaro lutava por condições médicas adequadas, uma advogada presa sofria uma convulsão sem assistência imediata no mesmo local. O caso serve como um alerta sobre como a judicialização da execução penal para autoridades pode, paradoxalmente, tanto evidenciar quanto agravar as mazelas do sistema para os presos comuns, aprofundando a sensação de que há duas justiças em um mesmo espaço de encarceramento.
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