Sem câmera, sem registro: PM que matou mãe de cinco filhos em Cidade Tiradentes não portava equipamento por falta de cadastro

Soldado Yasmin Ferreira, formada há quatro meses, não tinha cartão para retirar câmera corporal; vítima foi baleada no peito após discussão por esbarrão de viatura. Moradores denunciam truculência recorrente


A policial militar que atirou e matou a ajudante-geral Thawanna da Silva Salmázio, 31, mãe de cinco filhos, na madrugada do dia 3 de abril em Cidade Tiradentes (zona leste de São Paulo), não estava usando câmera corporal no momento do crime. O motivo, segundo a Polícia Militar: a soldado Yasmin Cursino Ferreira, 21, formada há apenas quatro meses, ainda não havia concluído o processo burocrático para receber o cartão eletrônico que libera o equipamento.

A ausência da câmera na farda de Yasmin impede que as imagens do momento exato do disparo sejam registradas — o que poderia esclarecer as circunstâncias do tiro que atingiu Thawanna no peito. O companheiro de viatura da soldado, Weden Silva Soares, 26, portava o equipamento, mas estava do outro lado do veículo, contendo o marido da vítima, Luciano Gonçalves dos Santos, 36. O tiro, portanto, não foi filmado.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) afirmou que o caso é investigado “com prioridade” pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e também por um Inquérito Policial Militar (IPM) com prazo de 45 dias. A pasta lamentou a morte e se solidarizou com os familiares, mas não respondeu a questionamentos sobre a falta do cartão da policial.


📹 O mecanismo que falhou: cartão vinculado ao CPF

Segundo o Centro de Comunicação Social da PM, o processo para que um policial passe a usar câmera corporal envolve a emissão de um cartão eletrônico vinculado ao número de CPF do agente. É com esse cartão que o policial retira o equipamento da doca — uma base onde as câmeras recarregam a bateria e descarregam as imagens gravadas.

No caso da soldado Yasmin, formada em 10 de dezembro de 2025, a corporação ainda não havia concluído o cadastro. Portanto, ela não tinha como retirar a câmera. O problema é conhecido: a burocracia para a emissão dos cartões tem atrasado a distribuição dos equipamentos para policiais recém-formados, deixando-os em serviço sem a proteção que as câmeras oferecem — tanto para o cidadão quanto para o próprio agente.

A Folha questionou a SSP sobre o atraso e sobre quantos policiais estão na mesma situação, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

💥 A sequência da tragédia: esbarrão, discussão e tiro

O caso ocorreu por volta das 3h da última sexta-feira (3). Thawanna e o marido, Luciano, caminhavam pela rua quando a viatura da PM passou e esbarrou o retrovisor no braço dele. A partir daí, uma discussão começou. Thawanna teria perguntado se os policiais iriam atropelá-los.

A soldado Yasmin então saiu da viatura e, segundo moradores e a advogada da família da vítima, Viviane Leme (que teve acesso às imagens do caso), agrediu Thawanna com um chute e um murro. O tiro teria ocorrido após a ajudante-geral dar um tapa na mão da policial em reação às agressões.

Thawanna foi atingida no peito. Imagens da câmera corporal do soldado Weden, publicadas pela TV Globo, mostram que ela ficou no asfalto por mais de meia hora agonizando. Uma filmagem feita por um morador registrou um policial apontando um fuzil e andando ao redor da vítima enquanto ela jazia no chão.

Os dois policiais foram afastados do patrulhamento nas ruas.

🗣️ Moradores denunciam truculência recorrente

Três moradores de Cidade Tiradentes relataram à Folha que, apesar de formada há apenas quatro meses, a soldado Yasmin já era conhecida na região por abordagens truculentas e desrespeitosas. A informação, se confirmada nas investigações, indicaria que o episódio fatal não foi um ato isolado, mas parte de um padrão de comportamento da policial.

A Corregedoria da PM tem 45 dias para concluir o IPM, a contar do dia 3 de abril. O inquérito deverá apurar se houve excesso ou uso indevido da força letal, além de investigar as denúncias de truculência anterior.

⚖️ O que diz a Secretaria de Segurança Pública

Em nota, a SSP afirmou: “Lamenta profundamente a morte de Thawanna da Silva Salmázio e se solidariza com seus familiares. A ocorrência é investigada pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), com prioridade, e também é objeto de Inquérito Policial Militar (IPM), com acompanhamento das corregedorias.”

A pasta, no entanto, não respondeu a perguntas específicas sobre a falta da câmera corporal, os critérios para distribuição dos cartões e quantos policiais recém-formados estão em serviço sem o equipamento.


Uma morte que expõe falhas sistêmicas

A morte de Thawanna da Silva Salmázio, mãe de cinco filhos, é mais um capítulo trágico da violência policial em São Paulo. Mas o caso expõe também uma falha sistêmica: a burocracia que impede policiais recém-formados de portarem câmeras corporais — exatamente quando mais precisam ser monitorados.

A soldado Yasmin estava na rua há menos de quatro meses. Sem câmera, sem registro. O tiro fatal não foi filmado. O que se sabe sobre as agressões prévias vem de testemunhas e de imagens parciais. O que aconteceu exatamente no momento do disparo — se foi legítima defesa, se houve excesso, se o tiro foi acidental ou intencional — talvez nunca se saiba com certeza.

As investigações do DHPP e da Corregedoria da PM terão que reconstituir os fatos sem o principal recurso de prova criado justamente para esses casos. A família de Thawanna clama por justiça. A sociedade, por respostas. E a PM, que implantou as câmeras corporais como política de transparência e redução da letalidade, terá que explicar por que uma de suas novas soldados estava desarmada de informação — e armada de um fuzil.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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