Preço do petróleo despenca após Trump recuar de ameaça de ataque ao Irã e anunciar “conversas produtivas”

Mercados reagem com alívio: Brent cai 13% e bolsas sobem; Irã nega contato direto com o presidente americano e afirma que ele “recuou” diante da ameaça de retaliação generalizada




A ameaça que fez o mundo prender a respiração durante o fim de semana se dissipou nesta segunda-feira (23/3), quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou o adiamento do ataque que prometera ao Irã caso o Estreito de Ormuz não fosse reaberto em 48 horas. O recuo foi suficiente para acalmar os mercados: o preço do petróleo Brent despencou 13%, caindo para cerca de US$ 96 o barril, e as bolsas de valores reverteram perdas expressivas.

O prazo expiraria às 20h44 (horário de Brasília) desta segunda. Na noite de sábado, Trump publicara em sua rede Truth Social um ultimato explosivo: “Se o Irã não ABRIR COMPLETAMENTE, SEM AMEAÇAS, o Estreito de Ormuz, dentro de 48 HORAS a partir deste exato momento, os Estados Unidos da América atacarão e destruirão suas diversas USINAS DE ENERGIA, COMEÇANDO PELA MAIOR!”

Horas antes do fim da contagem regressiva, Trump afirmou que os EUA e o Irã tiveram “conversas muito boas e produtivas” nos últimos dois dias sobre a “resolução completa e total das nossas hostilidades” no Oriente Médio.

Do lado iraniano, porém, a versão foi diferente — e reveladora.



🛢️ Mercados em reversão: o alívio que custou US$ 17 por barril

A simples perspectiva de um ataque dos EUA a usinas iranianas, com a promessa de retaliação iraniana sobre a infraestrutura energética do Golfo, havia levado o petróleo a ultrapassar US$ 113 o barril no início do dia. As bolsas asiáticas amargavam quedas de até 6,5%.

Com o anúncio do recuo americano, o cenário se inverteu:

· O petróleo Brent caiu 13%, sendo negociado a cerca de US$ 96 o barril
· O índice FTSE 100 de Londres subiu 0,5% — depois de ter chegado a cair 2% antes da notícia
· As bolsas asiáticas reduziram perdas ou fecharam em leve alta

Para o mercado de energia, foi a maior oscilação intradiária desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.

🎭 Trump recua; Irã afirma que ele “perdeu a coragem”

A versão americana fala em “conversas produtivas”. A versão iraniana, mais incisiva, dá o tom da disputa de narrativas. A agência de notícias Fars, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), citou uma fonte não identificada dizendo que “não há contato direto ou indireto com Trump”.

A mesma fonte afirmou que, após o Irã “deixar claro” que seus alvos incluiriam todas as usinas de energia do Oriente Médio, Trump “recuou”.

A declaração iraniana se alinha ao que a Guarda Revolucionária já havia anunciado no domingo: se os EUA atacassem o setor energético iraniano, o Estreito de Ormuz seria fechado “completamente” e não reaberto “até que nossas usinas de energia destruídas sejam reconstruídas”. Além disso, usinas de energia em Israel e “quaisquer empresas na região com acionistas americanos” se tornariam alvos legítimos.

🏛️ O tabuleiro diplomático e a pressão sobre aliados

Nos bastidores, Trump vinha pressionando aliados para ajudar nos esforços de reabertura do estreito. Na semana passada, chegou a chamar os países da aliança militar liderada pelos EUA de “covardes”. A postura gerou atritos, mas também movimentou a diplomacia.

No domingo, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, conversou por 20 minutos com Trump. Downing Street classificou a conversa como “construtiva” e afirmou que ambos concordaram que a reabertura do estreito era “essencial para garantir a estabilidade no mercado global de energia”.

Curiosamente, horas antes, Trump havia compartilhado em sua rede Truth Social um esquete satírico do programa britânico Saturday Night Live no qual atores interpretavam Starmer e seu vice em pânico antes de uma ligação com o presidente americano.

⚔️ O que muda com o recuo

O adiamento do ataque não significa o fim do conflito, mas altera significativamente seu curso:

· Alívio imediato nos mercados: o preço do petróleo volta a patamares menos recessivos, aliviando a pressão sobre economias importadoras
· Ameaça mantida, mas adiada: Trump não revogou a ameaça; apenas suspendeu a execução do ultimato. O estreito continua parcialmente bloqueado
· Irã ganha tempo e legitimidade de fato: ao impor uma taxa de US$ 2 milhões por navio que atravessa o estreito — como revelou o deputado Alaeddin Boroujrrdi —, o Irã consolida na prática uma espécie de pedágio de guerra, tratando o estreito como zona sob seu controle soberano
· Divergência de narrativas expõe fragilidades: a contradição entre a versão americana (“conversas produtivas”) e a iraniana (“Trump recuou”) sugere que o governo americano subestimou a disposição iraniana de retaliar de forma ampla na região

🌍 Alerta de segurança global mantido

Apesar do recuo na ameaça imediata, o Departamento de Estado dos EUA manteve o alerta a cidadãos americanos em todo o mundo. O comunicado pede cautela “especialmente no Oriente Médio” e alerta que “grupos que apoiam o Irã podem atacar outros interesses americanos no exterior ou locais associados aos EUA e/ou a cidadãos americanos em todo o mundo”.

O alerta reflete a avaliação de que, mesmo sem um ataque direto às usinas iranianas, a guerra no Oriente Médio continua em curso — e o risco de escalada permanece.



Conclusão: uma vitória por enquanto sem vencedor

O recuo de Trump na iminência do ultimato foi interpretado por analistas como uma demonstração de que, ao menos por ora, a administração americana não está disposta a arcar com os custos de uma guerra energética total no Golfo. A resposta iraniana — com a ameaça de destruir usinas de energia em toda a região, incluindo as de aliados americanos — parece ter funcionado como dissuasão eficaz.

Mas a crise não está resolvida. O Estreito de Ormuz continua bloqueado para navios ligados a “inimigos do Irã”, segundo Teerã. A taxa de US$ 2 milhões por travessia, se confirmada, representa uma transformação de fato no regime de navegação. E a guerra entre EUA e Israel contra o Irã prossegue em seus 24º dia, com bombardeios diários e dezenas de mortos.

Para Trump, o recuo evita uma escalada que poderia unir ainda mais o mundo árabe em torno do Irã e desorganizar os mercados de energia em um ano eleitoral. Para o Irã, o episódio reforça a narrativa de que sua capacidade de retaliação é crível e que o estreito continua sendo sua principal alavanca geopolítica.

O petróleo a US$ 96 ainda é caro. O estreito ainda não foi reaberto para todos. E a contagem regressiva, por ora suspensa, pode ser reiniciada a qualquer momento. A guerra não acabou. Mas, por algumas horas, o mundo respirou aliviado.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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