Peça por peça: imagem de caça abatido pelo Irã revela tratar-se de F-15, e não de F-35


Análise da CNN mostra que destroços divulgados pela mídia estatal iraniana pertencem a um F-15 do 48th Fighter Wing dos EUA, baseado no Reino Unido; Guarda Revolucionária havia afirmado ter abatido um caça stealth F-35



A imagem divulgada na sexta-feira (3) pela mídia estatal iraniana, que mostra fragmentos do que Teerã afirma ser um caça americano abatido em território iraniano, não corresponde ao que a Guarda Revolucionária declarou. Uma análise minuciosa dos destroços indica que a aeronave atingida era um F-15 da Força Aérea dos EUA — e não um F-35 stealth, como propagado pelo Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC).

As peças exibidas pelos veículos estatais — incluindo a Press TV — mostram parte do logotipo “US Air Forces in Europe” na cauda, além de faixas vermelhas e brancas na parte superior, características típicas dos F-15. Para especialistas, a identificação é clara. “Pela estrutura, certamente parece um F-15, e pelas marcas na cauda, é do 48th Fighter Wing, da Força Aérea dos EUA no Reino Unido”, disse Peter Layton, ex-oficial da Força Aérea Real Australiana, à CNN.

A contradição entre o que o regime dos aiatolás divulga e o que os destroços mostram é mais um capítulo na guerra de narrativas que acompanha o conflito no Oriente Médio — e expõe as dificuldades de Teerã em provar suas vitórias militares no campo de batalha.



🕵️ O que a imagem revela

A fotografia publicada pelos canais estatais iranianos mostra apenas fragmentos da aeronave — o maior deles aproximadamente do tamanho de uma pessoa. Os destroços estão espalhados, e a legenda oficial afirma tratar-se de um F-35 stealth, o caça de quinta geração mais avançado do mundo.

No entanto, os detalhes visíveis contam outra história:

· Logotipo “US Air Forces in Europe”: visível na cauda, é uma marca típica de F-15 estacionados no Reino Unido, pertencentes ao 48th Fighter Wing, baseado na RAF Lakenheath.
· Faixas vermelhas e brancas: padrão de pintura característico dos F-15 daquela unidade.
· Estrutura do estabilizador: outro fragmento parece corresponder à parte traseira de um F-15, entre um dos motores e o estabilizador horizontal.

A combinação desses elementos levou especialistas a concluir que a aeronave abatida era, de fato, um F-15 — e não um F-35, cujo design e marcas de identificação são significativamente diferentes.

🎯 As duas alegações iranianas e a resposta do Pentágono

Esta não é a primeira vez que o Irã afirma ter abatido aeronaves americanas. No dia 22 de março, o IRGC já havia declarado ter atingido um F-15 sobre o Estreito de Ormuz, nas proximidades da ilha de Qeshm. Na ocasião, nenhuma imagem de destroços foi divulgada, e o Comando Central dos EUA (CENTCOM) negou a alegação. “Todos os caças americanos estão contabilizados. O IRGC do Irã fez a mesma alegação falsa pelo menos meia dúzia de vezes”, afirmou o CENTCOM em um post de checagem no X.

Agora, com a divulgação da imagem, o regime iraniano tenta dar consistência visual a suas reivindicações. O comunicado da Press TV afirma que a aeronave foi abatida “no centro do Irã” e que, “devido à completa desintegração, o destino do piloto permanece desconhecido”.

O CENTCOM ainda não se pronunciou oficialmente sobre esta segunda alegação, mas a análise independente dos destroços já lança dúvidas sobre a narrativa iraniana.

🚀 F-15 vs. F-35: por que a distinção importa

A confusão — ou a tentativa deliberada de indução — entre os dois modelos tem importância estratégica. O F-35 é o carro-chefe da aviação de quinta geração dos EUA, projetado para furtividade (stealth) e capacidade de penetração em defesas aéreas adversárias. Abater um F-35 seria uma vitória propagandística imensa para o Irã, demonstrando capacidade de enfrentar a tecnologia mais avançada do Ocidente.

Já o F-15, embora ainda uma aeronave formidável, é um caça de quarta geração, em operação desde a década de 1970. Embora modernizado em suas versões mais recentes (como o F-15EX Eagle II), seu abate não teria o mesmo impacto simbólico.

Ao afirmar ter abatido um F-35 — e ao divulgar imagens que mostram um F-15 —, o Irã corre o risco de ser acusado de fabricar evidências ou, no mínimo, de exagerar suas conquistas militares. Para analistas, a inconsistência entre a declaração e as imagens pode minar a credibilidade de futuras reivindicações iranianas.

🌍 A guerra de narrativas no conflito do Oriente Médio

O episódio da imagem adulterada (ou mal legendada) insere-se em uma guerra paralela à militar: a guerra de narrativas. Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, Irã e EUA/Israel disputam a opinião pública internacional com versões contraditórias sobre o andamento das hostilidades.

· O Irã afirma ter infligido baixas significativas à coalizão ocidental, incluindo o abate de aeronaves de alta tecnologia e ataques a bases americanas na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes.
· Os EUA negam consistentemente essas alegações, divulgando contagens de aeronaves e baixas que contradizem as versões iranianas.

A divulgação de imagens — como a dos destroços do F-15 — é uma tentativa de dar lastro visual às reivindicações. Mas, como mostra a análise da CNN, o tiro pode sair pela culatra quando as imagens não correspondem ao que é afirmado.



Um abate que levanta mais perguntas do que respostas

A imagem divulgada pelo Irã mostra, inequivocamente, destroços de uma aeronave militar americana. Isso, por si só, é uma novidade no conflito: até agora, as alegações de abates não haviam sido acompanhadas de evidências visuais.

No entanto, a identificação do modelo como F-15, e não F-35, lança sombras sobre a precisão das informações iranianas. Se o regime errou na identificação — ou deliberadamente tentou inflar sua vitória —, sua credibilidade fica comprometida. Se, por outro lado, a imagem é autêntica e o abate realmente ocorreu, o Irã terá demonstrado capacidade de derrubar uma aeronave americana de quarta geração em pleno território iraniano — o que já seria uma conquista militar significativa, ainda que menor do que a propaganda inicial.

O Pentágono, até o momento, não confirmou a perda de qualquer aeronave. O silêncio do CENTCOM pode indicar que a investigação ainda está em curso — ou que os EUA preferem não dar publicidade a uma baixa que, se confirmada, representaria um duro golpe em sua campanha aérea.

Enquanto isso, a imagem dos destroços continua circulando nas redes sociais, alimentando teorias e versões. O que se sabe, por enquanto, é que há um avião americano destruído em algum lugar do Irã. O que não se sabe é como ele caiu, quem o abateu e, acima de tudo, qual é a verdadeira identidade de seus pilotos — e de seus algozes.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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