O tabuleiro em movimento: desistência de Ratinho Jr. reconfigura centro político e pode empurrar Flávio Bolsonaro para o meio

Analista avalia que saída do governador do Paraná, terceiro colocado nas pesquisas, altera dinâmica da disputa presidencial e abre espaço para realinhamento de forças no campo conservador




A desistência do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), da corrida presidencial, anunciada nos últimos dias, provocou um terremoto silencioso no tabuleiro eleitoral brasileiro. Mais do que a retirada de um nome que figurava entre os três mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto, o movimento altera a geografia política do centro e pode ter um beneficiário inesperado: Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Em entrevista ao WW, da CNN Brasil, o analista político Leonardo Barreto, sócio da consultoria Think Policy, avaliou que a saída de Ratinho Jr. não apenas desobstrui o campo, mas redefine os polos ideológicos da disputa. E, nesse novo desenho, o senador do PL pode ser “empurrado para o centro” — justamente o território mais disputado da eleição.



🧩 O tabuleiro antes e depois de Ratinho Jr.

Até a semana passada, o governador paranaense ocupava uma posição estratégica no espectro político. Com discurso modernizador, perfil jovem e trânsito tanto no agronegócio quanto em setores urbanos, ele era visto como o nome do PSD com maior capacidade de ocupar o centro — um espaço que, nas eleições presidenciais, costuma ser decisivo no segundo turno.

“Se a gente olha para os três nomes do PSD, ele era aquele que tinha mais condição de ocupar o centro”, explicou Barreto. “Eduardo Leite estaria mais próximo da centro-esquerda, e Ronaldo Caiado se posiciona mais à direita.”

Com a desistência de Ratinho Jr., o PSD perde seu principal articulador do centro moderado. E o vácuo criado passa a ser disputado por outros atores — entre eles, Flávio Bolsonaro, que até então era visto como um candidato de direita consolidada.

🎯 O efeito sobre Flávio: do núcleo duro ao centro

O raciocínio do analista é direto: se Ronaldo Caiado (PSD) — que já ensaia sua candidatura — entrar de fato na disputa, ele ocupará o flanco mais à direita do espectro. Sua trajetória como governador de Goiás, com discurso de gestão eficiente e alinhamento conservador, tende a atrair o eleitorado que valoriza esse posicionamento.

Nesse cenário, Flávio Bolsonaro, que carrega o sobrenome do ex-presidente e herda parte de sua base, será visto em comparação. E, curiosamente, poderá parecer mais ao centro do que Caiado.

“Se o governador Caiado entrar, ele provavelmente vai parecer para o eleitor brasileiro mais à direita do que o próprio Flávio, e aí dentro desse jogo de relatividades, ele empurra o Flávio para o centro”, analisou Barreto.

Para um candidato que deseja crescer nacionalmente e atrair eleitores que não se identificam com o bolsonarismo mais radical, ser percebido como “menos à direita” que um adversário pode ser uma vantagem — especialmente num cenário de segundo turno.

🕹️ A jogada de bastidores: Moro e a estratégia do PL

Barreto também apontou que a desistência de Ratinho Jr. não foi um movimento isolado, mas resultado de uma articulação mais ampla. Em sua avaliação, a entrada de Sérgio Moro no tabuleiro — ou mesmo sua mera presença como candidato viável — teria influenciado os cálculos do governador paranaense.

“A desistência de Ratinho Jr. foi influenciada pela candidatura do senador Sérgio Moro, que ele classificou como ‘uma jogada do Flávio’”, disse o analista.

A leitura é que Flávio Bolsonaro, ao estimular a candidatura de Moro — ou ao menos não atrapalhar sua viabilidade —, estaria contribuindo para retirar do caminho um adversário perigoso do centro (Ratinho) e para criar um campo de confronto em que ele próprio sai beneficiado. É uma tática de posicionamento em que o cenário é desenhado para que os concorrentes se canibalizem nos extremos, deixando o espaço central mais livre.

📊 Consequências para 2026: o “dois contra um”

Olhando adiante, Barreto prevê que a eleição presidencial de 2026 terá uma configuração peculiar: dois candidatos concentrando ataques ao atual mandatário, que deve tentar a reeleição.

O cenário de “dois contra um” — com dois adversários de espectros distintos mirando fogo no mesmo alvo — pode fragmentar a oposição, mas também pode gerar efeitos imprevisíveis. Dependendo de como se alinharem os campos, o centro moderado pode se tornar o fiel da balança.

Nesse contexto, Flávio Bolsonaro, se conseguir consolidar a imagem de candidato de centro que dialogue tanto com a base conservadora quanto com o eleitorado moderado, poderá surfar na onda de rejeição ao governo sem carregar o peso de uma radicalização que assuste o centro.



A reconfiguração do centro é a chave do jogo

A desistência de Ratinho Jr. não foi apenas a saída de um nome. Foi a retirada de uma âncora do centro moderado. Com ele fora, o tabuleiro se reorganiza: Ronaldo Caiado pode consolidar a direita; Eduardo Leite segue na centro-esquerda; e Flávio Bolsonaro vê aberta uma avenida para se apresentar como alternativa viável ao eleitor do meio.

A estratégia, como sugere Barreto, não é ingênua. Estimular a candidatura de Moro, deixar Caiado ocupar o flanco direito e, com isso, ser percebido como o “menos pior” entre os conservadores é uma tentativa de construir um caminho menos acidentado rumo ao centro.

O movimento, no entanto, não está livre de riscos. O centro não se conquista apenas por exclusão — é preciso conteúdo programático, discurso e capilaridade eleitoral. Além disso, a base mais fiel do bolsonarismo pode não aceitar ver o herdeiro político de Bolsonaro flertar com o centro.

O que se desenha, portanto, é uma eleição em que o posicionamento ideológico será mais fluido do que nunca. E onde a desistência de um governador que parecia destinado a ocupar o centro pode ter aberto, paradoxalmente, o caminho para que o centro seja ocupado por alguém que até então era visto como símbolo da direita.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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