O “Dia da Usina Elétrica”: Trump dá novo ultimato ao Irã e petróleo volta a disparar; Teerã promete retaliação “devastadora”

Presidente americano ameaça atacar pontes e usinas nesta terça-feira (7) se Estreito não for reaberto; em postagem repleta de insultos, Trump diz que iranianos “viverão no inferno” e Guarda Revolucionária anuncia morte de seu chefe de inteligência


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou neste domingo (5) mais um ultimato ao Irã, agora com data e hora marcadas: terça-feira (7), às 20h no horário do leste dos EUA (21h de Brasília). A ameaça, feita em postagem na rede Truth Social, promete ataques a pontes e usinas de energia iranianas caso o Estreito de Ormuz não seja reaberto. Em resposta, o Irã advertiu que qualquer agressão resultará em retaliação “devastadora”, enquanto a Guarda Revolucionária anunciou a morte de seu chefe de inteligência, Majid Khademi, em um ataque atribuído a Israel e EUA.

O barril de petróleo Brent voltou a subir nesta segunda-feira (6), atingindo US$ 110,85 — uma alta de 1,6% — antes de recuar ligeiramente. As bolsas asiáticas, no entanto, ignoraram a tensão e fecharam em alta: o Nikkei 225 subiu 1,6%, e o Kospi da Coreia do Sul avançou 0,9%.


💣 A ameaça de Trump: “Abram o maldito Estreito, seus bastardos loucos”

A postagem de Trump no domingo foi atípica até para seus padrões. Escrita em letras maiúsculas e repleta de linguagem ofensiva, o presidente americano escreveu:

“Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram o maldito Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão no inferno – AGUARDEM! Louvado seja Alá. Presidente DONALD J. TRUMP”

Em seguida, publicou um novo horário: “Terça-feira, 20h, horário do leste dos EUA!” — o que corresponde às 3h30 da manhã de quarta-feira em Teerã. A Casa Branca foi procurada pela BBC para esclarecer o significado da segunda postagem, mas não houve resposta imediata.

Em entrevistas à Fox News e ao The Wall Street Journal, Trump ampliou as ameaças: disse que está considerando “explodir tudo e tomar o controle do petróleo” do Irã se um acordo não for alcançado rapidamente. “Se o Irã quiser manter o estreito fechado, perderá todas as usinas de energia e todas as outras instalações que possui em todo o país”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Trump disse que há uma “boa chance” de um acordo ser fechado ainda nesta segunda-feira. “Eles estão negociando agora”, afirmou.

🇮🇷 A resposta iraniana: “ameaça desesperada, nervosa e estúpida”

O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, reagiu com dureza: “As ações imprudentes de Trump estão arrastando os EUA para um inferno na Terra para todas as famílias. Não se enganem: vocês não ganharão nada com crimes de guerra.” Ghalibaf acusou Trump de seguir ordens do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

O general Ali Abdollahi Aliabadi, do comando militar central do Irã, classificou a ameaça como “desesperada, nervosa e estúpida” e advertiu que “os portões do inferno se abrirão” para o líder americano.

O tom de desafio contrasta com a situação militar iraniana, que acaba de perder mais um de seus altos comandantes. Nesta segunda-feira, a Guarda Revolucionária anunciou que seu chefe de inteligência, Majid Khademi, foi morto em um ataque atribuído a Israel e EUA. Khademi havia substituído Mohammad Kazemi, morto em junho de 2025 durante uma guerra anterior de 12 dias entre Irã e Israel.

🛢️ Petróleo e mercados: a dança dos números

O petróleo voltou a subir com a nova rodada de ameaças. O Brent atingiu US$ 110,85 antes de recuar, mas ainda opera em patamares elevados. O bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — completa mais de um mês e já provocou uma disparada nos preços da energia, com impactos globais.

Curiosamente, as bolsas asiáticas ignoraram a tensão e fecharam em alta. Analistas atribuem o movimento a uma combinação de fatores: a expectativa de que o ultimato possa ser mais uma vez adiado (como já ocorreu em outras ocasiões) e a esperança de que as negociações de bastidores avancem.

📅 O histórico de ultimatos adiados

Esta não é a primeira vez que Trump dá um prazo ao Irã. Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o presidente já estabeleceu e adiou múltiplos prazos:

  • 21 de março: ameaçou “obliterar” usinas de energia em 48 horas
  • 23 de março: disse que houve “conversas produtivas” e adiou por cinco dias
  • 27 de março: novo adiamento de 10 dias, com prazo até 6 de abril
  • 4 de abril: com o prazo de 6 de abril se aproximando, deu novo aviso de 48 horas
  • 5 de abril: postagem com novo horário: terça-feira (7), 20h (horário do leste)

A cada novo prazo, a credibilidade do ultimato é testada. Até agora, Trump recuou todas as vezes — seja por negociações de bastidores, seja por relutância em iniciar uma guerra total. Resta saber se desta vez será diferente.

🏗️ Alvos civis e crimes de guerra: a crítica internacional

A ameaça de atacar pontes e usinas de energia — infraestrutura civil essencial para a população — foi duramente criticada por organizações de direitos humanos. A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnes Callamard, escreveu no X: “Que mensagem revoltante. Os civis iranianos serão os primeiros a sofrer com a destruição de usinas de energia e pontes. Sem eletricidade, aquecimento ou água; sem poder fugir dos ataques. Potencial para uma série de crimes de guerra em cascata.”

A mensagem de Callamard veio dias depois de mais de 100 especialistas em direito internacional terem assinado uma carta aberta expressando “profunda preocupação” com o que consideram graves violações do direito internacional por EUA, Israel e Irã na guerra. A Casa Branca respondeu dizendo que Trump está “tornando toda a região mais segura” e desconsiderou o que chamou de “os ditos especialistas”.

💥 O terreno: ataques já em curso

Enquanto Trump ameaça, os ataques continuam. Na última quinta-feira (2), os EUA já haviam atacado uma ponte em construção em Karaj, cidade a oeste de Teerã — um alargamento dos alvos americanos para infraestrutura civil.

Israel, por sua vez, segue atacando instalações de infraestrutura iranianas. No sábado (4), uma instalação petroquímica foi atingida. No domingo (5), ataques conjuntos de EUA e Israel atingiram o Aeroporto Internacional Qasem Soleimani, no sudoeste do Irã.

O Irã respondeu disparando drones e mísseis contra Israel e aliados no Golfo. Um prédio residencial em Haifa foi atingido diretamente por um míssil balístico no domingo, ferindo quatro pessoas. Em Abu Dhabi, autoridades combatiam incêndios em uma instalação petroquímica causados por destroços de mísseis iranianos. O Kuwait informou que ataques com drones danificaram gravemente instalações de petróleo e petroquímicas.


O prazo que pode (ou não) ser cumprido

O novo ultimato de Trump, com data e hora marcadas, eleva a tensão a um patamar poucas vezes visto desde o início da guerra. A ameaça de atacar pontes e usinas de energia — infraestrutura civil essencial — representa uma escalada significativa em relação aos bombardeios anteriores, focados em alvos militares.

A resposta iraniana, ao mesmo tempo desafiadora e ressentida pela perda de mais um alto comandante, mostra que Teerã não pretende ceder facilmente. O petróleo voltou a subir, e os mercados aguardam com apreensão.

A pergunta que fica é: Trump cumprirá a ameaça ou adiará mais uma vez o prazo? A história recente sugere que o presidente americano tem preferido a retórica belicista à ação militar de grande escala. Mas a cada novo ultimato, o custo de recuar aumenta — e a credibilidade de sua palavra fica mais frágil.

O mundo assiste, mais uma vez, ao impasse no Golfo Pérsico. O “Dia da Usina Elétrica” pode ser apenas mais uma ameaça retórica — ou o início de uma fase ainda mais destrutiva da guerra. A resposta virá na terça-feira, às 21h de Brasília.

Reportagem produzida com base em informações da BBC News Brasil publicadas em 5 e 6 de abril de 2026

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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