Diálogos revelam que dono do Banco Master atualizava ministro do STF sobre negociações para salvar a instituição e mencionava inquérito sigiloso horas antes de ser algemado em Guarulhos

Eram 20h48 do dia 17 de novembro de 2025 quando o celular do ministro Alexandre de Moraes recebeu a última mensagem daquele domingo. Do outro lado da tela, o banqueiro Daniel Vorcaro enviava mais um print do bloco de notas, numa tentativa de manter o canal aberto com o gabinete do Supremo Tribunal Federal. Pouco mais de uma hora depois, Vorcaro seria algemado por agentes da Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, interrompendo uma viagem que teria Malta como destino e mudando para sempre os rumos do Banco Master.
O que poucos sabiam até esta sexta-feira (6) é que, por trás da operação que resultou na prisão do executivo, havia uma intensa troca de mensagens entre o banqueiro e o ministro do STF — diálogos que misturavam negócios, estratégias de defesa e, segundo apuração da jornalista Malu Gaspar, menções a um inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília.
🎯 Os bastidores da operação de salvamento
As mensagens obtidas pelo celular de Vorcaro, apreendido no momento da prisão, revelam que o dono do Master mantinha o ministro informado sobre cada passo das negociações para vender o banco — uma operação considerada crucial para evitar a liquidação da instituição pelo Banco Central.
“Antecipamos o negócio. Conseguimos salvá-lo, embora não do jeito que eu queria”, escreveu Vorcaro a Moraes em uma das notas, segundo a reportagem do jornal O Globo. A frase, enviada na manhã do dia da prisão, sugere que o banqueiro via na venda uma espécie de salvação para o império financeiro que construiu ao longo de duas décadas.
O que chama atenção dos investigadores é o nível de detalhamento das informações compartilhadas. Vorcaro não apenas comunicava ao ministro os avanços das tratativas, como também pedia orientações e avaliações sobre os próximos passos.
📱 O método do sigilo: prints e visualização única
Para evitar que os diálogos deixassem rastros, banqueiro e ministro adotaram um protocolo de segurança digno de filmes de espionagem. Ambos escreviam suas mensagens no bloco de notas dos celulares, tiravam prints e enviavam as imagens com a função de visualização única ativada — recurso que apaga o conteúdo automaticamente após ser aberto pelo destinatário.
O expediente, no entanto, não foi suficiente para apagar completamente os rastros de Vorcaro. Seu celular manteve armazenadas as notas originais, com os horários de criação perfeitamente alinhados aos momentos de envio — geralmente com diferença de apenas um minuto entre salvar a nota e disparar a mensagem.
Ao todo, nove prints foram trocados entre 7h19 e 20h48 daquele 17 de novembro. A última comunicação aconteceu 74 minutos antes da abordagem policial.
🔍 O inquérito sigiloso e a pergunta que ficou no ar
Entre os trechos recuperados, um em especial acendeu alerta nos meios jurídicos e policiais. Vorcaro menciona um vazamento que “será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo”. Em outro momento, pergunta diretamente ao ministro: “Conseguiu bloquear?”
A pergunta, que ficou sem resposta nos registros acessíveis, levanta suspeitas sobre o que exatamente Vorcaro esperava que Moraes bloqueasse. A menção ao vazamento e ao “circuito do processo” coincide com o fato de que o banqueiro era alvo de um inquérito sigiloso na Justiça Federal de Brasília — o mesmo que acabou fundamentando sua prisão.
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a troca de mensagens entre uma parte investigada e um ministro do STF sobre investigações em curso, ainda que de forma indireta, pode configurar violação de princípios éticos e legais.
⚖️ O contrato milionário e a conexão familiar
Um elemento adicional tornou o caso ainda mais delicado. Em janeiro de 2024, o Banco Master contratou o escritório Barci de Moraes Advocacia para representá-lo judicialmente. O escritório pertence a Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, e tem como sócios dois filhos do casal.
O contrato previa remuneração mensal de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos — o equivalente a R$ 129,6 milhões no período — para atuar junto ao Banco Central, Receita Federal, Cade, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e Congresso Nacional. Apesar do valor vultoso, fontes consultadas por O Globo afirmam desconhecer atuação concreta do escritório nesses órgãos.
Procurado, o ministro Alexandre de Moraes preferiu não se manifestar sobre o caso. Em nota enviada na quinta-feira (5), quando a primeira reportagem foi publicada, Moraes afirmou “não ter recebido as mensagens” e classificou a informação como “ilação mentirosa no sentido de atacar o STF”.
A defesa de Daniel Vorcaro, por sua vez, limitou-se a informar que não comentaria o conteúdo das reportagens.
Uma crise institucional em gestação
O que os prints revelam vai além da relação entre um banqueiro e um ministro. Eles expõem os limites tênues entre o público e o privado, entre a amizade pessoal e a obrigação institucional, entre a defesa de interesses legítimos e a possível contaminação de investigações sigilosas.
A prisão de Vorcaro, ocorrida em novembro e renovada na última quarta-feira (4) por determinação do ministro André Mendonça, pode ser apenas o primeiro capítulo de uma história que ainda reserva desdobramentos. A menção ao “bloqueio” que Vorcaro esperava de Moraes, o vazamento que poderia ser “gancho” para ingressar no processo e a coincidência temporal entre as negociações de venda do banco e as tratativas nos bastidores do STF formam um novelo que começa a ser desenrolado.
Enquanto isso, o Banco Master segue em processo de reestruturação, Daniel Vorcaro permanece sob monitoramento eletrônico e o Supremo Tribunal Federal enfrenta mais um episódio que testa sua credibilidade institucional. No centro da tormenta, uma pergunta insiste em ecoar: o que mais estava escrito naquelas notas que o print único não conseguiu apagar?
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