quarta-feira , 11 dezembro 2019
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As mulheres que ajudaram na construção de Brasília

Quando saíram do aconchego de suas casas, Marilda Porto, aos 18 anos, e Elvira Barney, aos 22 anos, não sabiam o que enfrentariam na construção de uma cidade em meio ao cerrado. Poeira, mato, desconforto e solidão eram alguns dos desafios que cercavam as pioneiras de Brasília. Apesar das dificuldades, as recém-casadas e muitas outras mulheres não deixaram o desafio de ficar e ajudar na fundação da nova capital do Brasil, inaugurada em 1960.

Marilda, 80 anos, desembarcou em Brasília em 1958. Nascida em Rio Verde, Goiás, ela afirma que não se importou com a “poeira barrenta” que estava por toda parte da cidade. “Eu tenho uma impressão totalmente diferente das pessoas que vem de um centro maior. Nasci e fui criada no interior, então eu não me incomodei porque já era acostumada. O Juscelino [Kubitschek] estava trazendo desenvolvimento para o interior do país e olha o que o Brasil virou a partir disso”, justifica.

Marilda Porto veio para Brasília em 1958, aos 18 anos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília
Marilda Porto veio para Brasília em 1958, aos 18 anos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília

Ela foi casada durante 60 anos com Edson Porto, primeiro médico a fazer atendimento na nova capital da República. Ele faleceu em setembro do ano passado aos 86 anos devido a um câncer no pulmão. Junto com o pediatra, Marilda teve cinco filhos, 12 netos e dois bisnetos. “Nos conhecemos em uma festa em Goiânia. Aqui não tinha mulheres, só operários. Nos casamos após dez meses de namoro”, lembra.

Como a casa que moravam era perto do hospital, a pioneira conta que tinha acesso a água e luz e que fazia questão de ajudar e dividir com quem não tinha acesso às necessidades básicas. Conhecida como primeira dama pelos operários, Marilda acompanhava Edson nos plantões. “Eu ia ficar sozinha? Lá tinham duas camas, entrava e saia enfermeira, mas eu não me importava e continuava dormindo”, recorda-se aos risos.

1958É o ano que Marilda Porto mudou-se para o que seria a nova capital

Entre tantas histórias que marcaram a vida de Marilda, a pioneira não esconde a emoção ao falar da trágica morte de uma médica, que era querida por todos os moradores. “Fazíamos piqueniques em volta de um dos rios da cidade, pois o Lago Paranoá ainda não existia. Ela não sabia que estava grávida, teve uma tontura, bateu a cabeça na pedra e acabou sendo levada pela água”, lamenta.

Por conta de tantos acontecimentos significativos, a pioneira acredita que amadureceu muito rápido. “Com 18 anos já tinha visto de tudo no hospital. Chegavam pessoas queimadas, com pernas que precisavam ser amputadas. Eu acho que foi bom para a minha vida. Eu não tenho medo de nada hoje em dia”, garante.

Marilda acredita que estava predestinada a vir para a capital, pois no dia do aniversário dela, 18 de fevereiro, foi assinada a escritura de transferência da região de Brasília para a União. “Meu padrinho, que era senador na época, foi um dos que assinou o documento, enquanto eu não imaginava que isso estava acontecendo. Não tínhamos televisão, jornal”.

Da antiga para a nova capital

Diferentemente de Marilda, Elvira Barney, 80 anos, teve que criar coragem para contar a família e aos amigos que sairia do Rio de Janeiro para morar em Brasília. “Foi uma aventura, pois eu tinha apenas dez dias de casada. As pessoas achavam que eu era louca, mas eu tive uma surpresa enorme quando cheguei aqui: tinha até lago”, conta aos risos.

Elvira Barney é casada com o colombiano César Barney, um dos arquitetos um dos arquitetos que ajudou na construção de Brasília. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília

Ela é casada com César Barney desde 1961, um dos arquitetos que ajudou na construção da nova capital do Brasil. Ele é colombiano e estava terminando o curso nos Estados Unidos quando foi convidado para participar do projeto de Juscelino Kubitschek. Os dois tiveram três filhos e três netos.

A decoradora lembra que mesmo após um ano da inauguração, Brasília tinha praticamente só terra. “Fomos um dos primeiros moradores do Lago Sul. Naquela época tinham quatro ou cinco casas de ministros”. Após conseguirem construir uma residência, o casal ofereceu um jantar para o embaixador da Colômbia. Na véspera do evento um tigre, cujo o nome era Gilberto, escapou do zoológico e se “acampou” nas redondezas da região.

“Metade do [Palácio do] Itamaraty e embaixadores estavam lá. Tinham bombeiros na minha porta e guardas caçando Gilberto porque ao redor da minha casa não tinha sequer uma cerca. Graças a Deus foi tudo um sucesso. Até às 3h da manhã tinha gente dançando”, disse aliviada.

Cerca de quatro anos depois, após começar a ter filhos, veio o desespero. “No Rio de Janeiro tinha tudo e aqui nada. Quando eu tinha que fazer compras tinha que ir até Goiânia. Não conhecia os pediatras daqui. Me deu vontade de voltar para o Rio de Janeiro, mas foi momentâneo”, garante.

Condições

Segundo a coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam), Tânia Fontenele, a grande maioria das mulheres vieram para Brasília acompanhar os maridos. “As condições eram precárias. A cidade estava sendo construída e não tinha urbanismo, então os acampamentos eram de madeira, muitos moradores não tinham acesso a água e luz”, explica.

Marilda, Edson Porto e a primeira filha deles. / Foto: Arquivo pessoal
Marilda, Edson Porto e a primeira filha deles. / Foto: Arquivo pessoal

 

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