Presidente americano afirma que enviou plano de 15 pontos ao país persa, enquanto Guarda Revolucionária ironiza: “Não chamem sua derrota de acordo”; EUA enviam tropas da 82ª Divisão Aerotransportada para o Oriente Médio

O cabo de guerra entre Estados Unidos e Irã ganhou mais um capítulo nesta quarta-feira (25), com os dois lados travando uma batalha paralela de narrativas sobre o que acontece ou não nos bastidores da guerra que já dura quase um mês. Enquanto o presidente Donald Trump insiste que negociações estão em curso e que o Irã “deseja muito fechar um acordo”, autoridades iranianas voltaram a negar qualquer diálogo direto ou indireto com os americanos — e apresentaram cinco condições para pôr fim ao conflito.
A troca de declarações ocorre em meio a uma escalada militar silenciosa: o Pentágono confirmou o envio de tropas da 82ª Divisão Aerotransportada para a região, uma unidade de elite treinada para intervenções rápidas, que poderia ser usada para capturar a Ilha de Kharg — responsável por 90% das exportações de petróleo do Irã.
🎭 Trump: “Eles têm medo de admitir que estão negociando”
Em encontro do Partido Republicano em Washington, Trump afirmou que os líderes iranianos “têm medo de dizer que estão negociando com os EUA porque acham que serão mortos pelo próprio povo”. “Eles também têm medo de serem mortos por nós”, acrescentou.
O presidente americano voltou a evitar a palavra “guerra”, preferindo o termo “operação militar” — uma distinção que, segundo ele, evita a necessidade de aprovação do Congresso. “O câncer era o Irã com uma arma nuclear. Nós o extirpamos agora. Vamos acabar com isso”, disse.
Trump afirmou que os EUA estão conversando com “as pessoas certas” no Irã e que um plano de 15 pontos foi enviado ao país persa. Segundo agências de notícias, a proposta incluiria alívio de sanções, cooperação nuclear civil, reversão do programa nuclear iraniano, monitoramento pela AIEA, limites para mísseis e garantias de navegação no Estreito de Ormuz.
🇮🇷 Irã: “Não chamem sua derrota de acordo”
Do lado iraniano, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, admitiu que os EUA vêm enviando mensagens “há vários dias” por meio de intermediários, mas negou que isso caracterize “diálogo, negociação ou qualquer coisa do tipo”. “O Irã tem respondido com posições e advertências. Não há intenção de negociar neste momento.”
Mais incisivo foi o porta-voz do Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, principal comando militar do Irã. Ebrahim Zolfaghari publicou um vídeo em que ironiza a insistência americana em negociações: “Não chamem sua derrota de acordo”. “Alguém como nós jamais fará um acordo com alguém como vocês. Nem agora, nem nunca”, completou.
A emissora estatal PressTV divulgou, citando uma autoridade não identificada, cinco condições iranianas para encerrar a guerra:
- Interrupção total da “agressão e das ações de assassinato” pelo inimigo
- Mecanismos concretos para garantir que a guerra não se repita
- Pagamento garantido de danos e reparações de guerra
- Fim da guerra em todas as frentes e para todos os grupos de resistência na região
- Reconhecimento internacional do direito soberano do Irã sobre o Estreito de Ormuz
🪖 O movimento silencioso dos EUA: tropas em posição
Enquanto as palavras se chocam, os movimentos militares continuam. O Pentágono confirmou oficialmente o envio de elementos da 82ª Divisão Aerotransportada para o Oriente Médio, incluindo tropas de apoio e a 1ª Brigada de Combate.
Com base na Carolina do Norte, a 82ª Divisão é uma das principais unidades convencionais de combate dos EUA, com capacidade de deslocamento para qualquer lugar do mundo em até 18 horas. Treinadas para saltos de paraquedas e assaltos de helicóptero, essas tropas são projetadas para tomar territórios estratégicos.
O alvo mais provável, segundo especialistas militares ouvidos pela BBC, é a Ilha de Kharg, que abriga instalações de armazenamento e carregamento de petróleo e responde por cerca de 90% das exportações iranianas. Ex-funcionários da defesa dos EUA afirmaram que tropas americanas provavelmente conseguiriam assumir o controle da pequena ilha com facilidade — uma medida que aumentaria drasticamente a pressão sobre Teerã.
🧩 O plano de 15 pontos e as reações na região
O suposto plano de 15 pontos enviado por Trump ao Irã foi descrito por autoridades paquistanesas, que afirmaram que os EUA têm utilizado o Paquistão como canal para negociações. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif já disse que seu país está “pronto” para sediar conversas.
Em Israel, o ministro da Economia, Nir Barkat, foi cético. Em entrevista à BBC, disse ser improvável que o Irã aceite o plano, que considerou “bonito no papel”, mas que carece de garantias de implementação. “O regime iraniano não vai mudar”, afirmou, acrescentando que os objetivos de Israel são deixar o Irã “sem armas nucleares, sem mísseis e sem aliados”.
Barkat indicou que Israel e EUA estão alinhados nos objetivos, mas não confirmou se há alinhamento sobre o plano de 15 pontos: “Acredito que, ao final desta rodada, alcançaremos os objetivos, com ou sem acordo.”
Entre a guerra declarada e o acordo negado
O que se desenha no confronto entre EUA e Irã é uma guerra paralela de interpretações. Enquanto Trump tenta vender ao público americano a imagem de que está conduzindo uma operação militar cirúrgica combinada com negociações de bastidores, o Irã sustenta uma posição de resistência pública, negando qualquer diálogo e estabelecendo condições que, na prática, equivaleriam a uma rendição americana.
O envio de tropas da 82ª Divisão Aerotransportada indica que Washington se prepara para opções militares mais agressivas — como a captura da Ilha de Kharg — caso as negociações não avancem. Para o Irã, porém, qualquer acordo que não reconheça seu controle soberano sobre o Estreito de Ormuz e não garanta reparações de guerra é inaceitável.
O prazo de cinco dias que Trump deu a si mesmo na segunda-feira (23) para reavaliar o bombardeio às usinas iranianas se aproxima do fim. A pergunta que fica é: as “mensagens” enviadas por intermediários são o prelúdio de um acordo, ou apenas um jogo de paciência enquanto as tropas se posicionam?
Enquanto Trump afirma que o Irã “tem medo” de admitir que negocia, Teerã diz que os EUA estão “negociando consigo mesmos”. No meio dessa disputa de narrativas, o Estreito de Ormuz permanece parcialmente bloqueado, o petróleo oscila acima de US$ 100, e as tropas americanas se preparam para o que pode ser o próximo movimento decisivo.
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