O fio da meada: André Mendonça comanda delações que podem atingir os Três Poderes em escândalos do Master e do INSS

Ministro do STF é relator dos dois principais inquéritos que apuram fraudes bilionárias; Daniel Vorcaro assina termo de confidencialidade e abre caminho para delação que promete abalar Brasília no 2º semestre de 2026





O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou-se o centro nervoso de dois dos maiores escândalos de corrupção em curso no país. Relator dos inquéritos que investigam as fraudes nos descontos do INSS e os crimes financeiros do Banco Master, Mendonça agora comanda as negociações de delações premiadas que, segundo apuração do Poder360, podem atingir autoridades dos Três Poderes no período mais quente da campanha eleitoral deste ano.

O principal acordo em gestação é o de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, que assinou em 19 de março um termo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal. Preso na Superintendência da PF em Brasília desde a quinta-feira (19/3), Vorcaro é visto como peça-chave para desvendar a teia que conecta fraudes financeiras, desvios previdenciários e supostas relações privilegiadas com agentes públicos de alto escalão.



🔍 Os dois inquéritos sob a batuta de Mendonça

Mendonça assumiu a relatoria do caso Banco Master em 12 de fevereiro, substituindo o ministro Dias Toffoli. A troca foi acertada em reunião com todos os dez integrantes da Corte – a cadeira deixada por Roberto Barroso, aposentado em outubro de 2025, segue vaga.

Além do caso Master, Mendonça também é relator do inquérito que investiga as fraudes nos descontos do INSS – esquema que, segundo o relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), movimentou quase R$ 40 bilhões em lavagem de dinheiro, com conexões que vão do PCC ao Hezbollah.

A concentração dos dois casos nas mãos de um único ministro, que chegou ao STF indicado por Jair Bolsonaro e tem perfil mais conservador, adiciona uma camada extra de expectativa sobre os rumos das investigações. Mendonça já deu mostras de que pretende conduzir os processos com mão firme: autorizou a terceira fase da Operação Compliance Zero em 4 de março, que resultou na prisão preventiva de Vorcaro, decisão referendada por unanimidade pela 2ª Turma do STF.

📝 O passo a passo da delação de Vorcaro

O termo de confidencialidade assinado por Vorcaro é o primeiro degrau de um processo que, se confirmado, pode se tornar a maior delação premiada desde a Lava Jato. O mecanismo funciona em etapas:

Fase preliminar (30 a 60 dias): Vorcaro deverá responder a todos os questionamentos da delegada e dos procuradores, fornecendo provas que corroborem sua versão. Nesse período, as informações são sigilosas.

Avaliação da PGR e PF: Após os depoimentos, as instituições avaliam se os relatos trazem indícios concretos que ajudem a encontrar mais provas. Se positivo, a PGR encaminha pedido ao gabinete de Mendonça para homologação do acordo.

Homologação e novos depoimentos: Com a homologação, são realizados novos depoimentos, agora registrados e anexados aos autos do inquérito. A validade da delação só é confirmada após a decisão final do relator.

A expectativa é que o processo se estenda por 30 a 60 dias, com efeitos possíveis sendo sentidos a partir do segundo semestre de 2026 – justamente o período mais quente da campanha eleitoral.

🎯 O que se espera das revelações

Fontes ligadas às investigações indicam que Vorcaro pode trazer informações sobre relações de proximidade com autoridades do Judiciário, do mundo político e de órgãos reguladores. A pergunta que circula nos bastidores de Brasília é: quem mais estava na lista de contatos do banqueiro, além do ministro Alexandre de Moraes?

Contudo, o próprio Mendonça impõe uma condição clara: “É zero a chance de Mendonça deixar algum delator fazer relatos seletivos, tentando salvar alguém. Ou o delator fala tudo, ou não será aceito o acordo de colaboração.”

A delação só será considerada válida se Vorcaro revelar integralmente o que sabe. E as informações só serão investigadas se constituírem crime – relações de proximidade, investimentos e contratos de prestação de serviços advocatícios, por si só, não são ilícitos. O que pode levar a novos desdobramentos são indícios de corrupção ou advocacia administrativa.

🏛️ O caso do INSS: Lulinha na mira?

Além de Vorcaro, há pelo menos duas ou três delações em negociação referentes às fraudes no INSS. E um dos pontos ainda nebulosos, segundo o Poder360, é se Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha) , filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), esteve ou não envolvido com o esquema.

Em dezembro de 2025, o Poder360 revelou que Lulinha recebeu “mesada” do Careca do INSS – apelido dado a um dos operadores do esquema. A movimentação bancária do filho do presidente, que somou quase R$ 20 milhões em quatro anos, chamou a atenção dos investigadores e pode se tornar um dos focos das delações.

As revelações sobre o INSS, se confirmadas, colocariam o governo Lula em rota de colisão com as investigações – algo que Mendonça, como relator, terá de administrar.



O calendário eleitoral contra o relógio da Justiça

A decisão de Mendonça de comandar pessoalmente as delações dos dois maiores escândalos em curso no país não é apenas uma escolha processual. É um movimento que define o ritmo e o alcance das investigações – e que pode ter impacto direto nas eleições de outubro.

Se as delações produzirem frutos no segundo semestre, como esperado, os candidatos a cargos majoritários terão que lidar com revelações potencialmente explosivas no auge da campanha. Se os processos se arrastarem, o escândalo pode “esfriar” – como alertou a coluna de Cláudio Humberto – e perder impacto político.

Mendonça, que já enfrentou críticas do decano Gilmar Mendes por usar “conceitos porosos e elásticos” para justificar a prisão de Vorcaro, terá que navegar entre a exigência de rigor técnico e a pressão política inevitável em um ano eleitoral.

O que se sabe, por ora, é que o termo de confidencialidade foi assinado. Vorcaro está preso, e a PF tem acesso a seus celulares, suas mensagens e seus contatos. O que ele dirá nos próximos 60 dias pode determinar não apenas seu futuro, mas o de autoridades que hoje ocupam os mais altos cargos do país.

A delação de Vorcaro, combinada com as que virão do INSS, promete ser o fio que, puxado, pode desfiar uma trama de proporções ainda desconhecidas. Resta saber se Mendonça conseguirá manter o controle do novelo até o fim.

About Danillo Luiz

Fotógrafo, Cineasta e Repórter.

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