Relator Alfredo Gaspar afirma que investigação entrou pelo sistema previdenciário e encontrou “mecanismo que coloca o Brasil nessa rota internacional”; relatório final tem 5 mil páginas e 228 indiciados

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A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que se aproxima do fim, revelou uma dimensão muito maior do que a inicialmente prevista. Segundo o relator do colegiado, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), as investigações identificaram uma rede de lavagem de dinheiro estimada em quase R$ 40 bilhões, com conexões que ultrapassam o sistema previdenciário e alcançam organizações criminosas brasileiras e grupos terroristas internacionais.
“Chegamos a uma rede de lavagem de dinheiro de quase R$ 40 bilhões, não são R$ 40 milhões, são R$ 40 bilhões, que vai desde o Hezbollah ao PCC e a um mecanismo que coloca o Brasil nessa rota internacional”, afirmou Gaspar em entrevista à Revista Oeste. “Entramos pelo INSS, descobrimos por meio dessa entrada de R$ 150 milhões uma rede que nós não esperávamos descobrir. Nessa mesma rede, por exemplo, encontra desconto associativo com Master.”
A declaração do relator revela que as fraudes nos descontos de aposentados e pensionistas, que motivaram a criação da CPMI, eram apenas a ponta visível de um esquema muito mais complexo e perigoso.
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🌐 A teia criminosa: do Hezbollah ao PCC
A afirmação de Gaspar conecta três elementos que, à primeira vista, pareceriam distantes:
· Hezbollah: grupo político e militar libanês, classificado como organização terrorista por diversos países, tem histórico de financiamento por meio de atividades ilícitas ao redor do mundo
· PCC (Primeiro Comando da Capital): a maior facção criminosa do Brasil, com atuação nacional e internacional
· Banco Master: instituição financeira envolvida em escândalos de fraudes bilionárias e cujo dono, Daniel Vorcaro, está preso
Segundo o relator, o mecanismo de lavagem que liga esses atores seria operado por meio de descontos associativos em folhas de pagamento do INSS – um sistema que, na prática, desviava recursos de aposentados e pensionistas para abastecer uma estrutura criminosa de proporções internacionais.
“O Brasil está uma porta aberta para lavagem de dinheiro. E essa porta aberta tem que ser discutida por nós também, nós não podemos ter a cada dia uma novidade de corrupção com lavagem de dinheiro por conta da permissividade legislativa”, alertou Gaspar.
📊 O relatório final: 5 mil páginas e 228 indiciados
A CPMI do INSS, que teria seu prazo final encerrado nesta semana, produziu um relatório de dimensões extraordinárias. Gaspar afirmou que o documento está pronto e contém:
· 5 mil páginas
· 228 indiciados
· Análise baseada em dados da CGU, TCU, depoimentos e quebras de sigilo
O relator fez questão de destacar que o trabalho foi conduzido com rigor técnico, sem ceder a pressões políticas: “Não cito no relatório Lula, Bolsonaro, porque eu tenho a responsabilidade de fazer uma coisa técnica, baseada nos dados da CGU, do TCU, dos depoimentos e das quebras de sigilo.”
A afirmação é uma resposta indireta às críticas de que a CPMI teria motivação eleitoral ou partidária. Gaspar sustenta que o foco sempre foi estrutural, não personalista.
⏳ A batalha pela prorrogação
Apesar de o relatório estar concluído, Gaspar defende a prorrogação da CPMI – que estava prevista para terminar em 28 de março. Para ele, o colegiado ainda tem um papel fundamental a cumprir: não apenas concluir a investigação, mas produzir respostas legislativas para evitar que esquemas semelhantes se repitam.
“Vai ser muito importante porque nós estamos trabalhando na legislação, através de projetos de lei, para buscar uma blindagem do sistema de previdência”, afirmou.
O relator minimizou a importância das ausências de testemunhas, que marcaram os trabalhos em diversos momentos: “No arcabouço probatório da investigação, o que menos gastamos tempo é em testemunhas. Nós analisamos dados, afastamento de sigilos, indícios. Estamos anos luz à frente de ficarmos parados por conta da ausência de testemunhas.”
A prorrogação, no entanto, enfrenta resistências. O senador Eduardo Girão (Novo-CE) deposita no ministro André Mendonça (STF) a esperança de que a CPMI tenha seu prazo estendido. Mas, até o momento, não há consenso entre os líderes partidários.
🏦 A fragilidade estrutural do Estado brasileiro
Para Gaspar, o que a CPMI revelou vai além de um esquema de corrupção isolado. É uma falha sistêmica, construída ao longo de anos, que transformou a Previdência em território fértil para desvios e lavagem de dinheiro.
“Essa esculhambação chegou a esse ponto porque o sistema de previdência brasileiro foi loteado para atender interesses políticos”, afirmou.
A denúncia de que os descontos associativos – criados originalmente para que sindicatos e associações pudessem cobrar contribuições de associados – foram transformados em mecanismo de desvio bilionário expõe um problema de governança que, segundo o relator, precisa ser enfrentado com mudanças na legislação.
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Um escândalo que transcende a Previdência
O que começou como uma investigação sobre descontos indevidos em aposentadorias se transformou em um retrato aterrador da vulnerabilidade do Estado brasileiro diante de esquemas organizados de lavagem de dinheiro. A conexão entre fraudes previdenciárias, o PCC, o Hezbollah e o Banco Master – se confirmada nas investigações – coloca o Brasil numa rota internacional de crime organizado que até então parecia restrita a outros países.
O relatório de 5 mil páginas e 228 indiciados é um documento que, por sua própria magnitude, tende a pressionar o sistema de Justiça a agir. Mas Gaspar vai além: não basta punir, é preciso blindar. E a blindagem, em sua visão, passa por mudanças legislativas que só podem ser construídas com o aprofundamento dos trabalhos.
O destino da prorrogação da CPMI será decidido nos próximos dias. Seja qual for o desfecho, o que já se sabe é suficiente para expor uma fragilidade estrutural que políticos de diferentes espectros terão que enfrentar: a Previdência, que já enfrenta desafios demográficos e fiscais, também se tornou um dos principais canais de lavagem de dinheiro do país – e o Estado, até agora, não conseguiu fechar a porta.
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